Título: SMP&B e DNA começam a perder clientes privados
Autor: Maria Lúcia Delgado
Fonte: Valor Econômico, 15/07/2005, Política, p. A6
Maiores agências de publicidade de Minas com mais de duas décadas em operação, a SMP&B Comunicação e a DNA Propaganda, que têm o empresário Marcos Valério de Souza como sócio, enfrentam uma crise de imagem sem precedentes no mercado publicitário. Empresas e órgãos da administração pública federal e estadual suspenderam a execução dos contratos. Na carteira de clientes da iniciativa privada, as empresas evitam declarações públicas. Mas pelo menos duas empresas confirmaram o rompimento de contratos com as agências do empresário acusado de ser operado do mensalão. "É complicado estar ligado a essa agência agora", comentou a executiva de comunicação de uma indústria cliente da SMP&B. Atendendo uma recomendação da Promotoria de Defesa do Patrimônio Público, o governo de Minas suspendeu a execução dos contratos da SMP&B e da DNA. As duas empresas têm mais da metade da verba publicitária do governo de Aécio Neves (PSDB). São R$ 16,2 milhões acrescidos de mais 25% do valor, de acordo com aditamento realizado no fim do ano passado. O Ministério Público Estadual recomendou a suspensão de contratos para todas as entidades da administração pública direita e indireta e deu prazo de dez dias, que começaram a contar na terça-feira, para que os órgãos informem as medidas adotadas. Também está na lista de clientes da agência a Assembléia Legislativa Estadual. A Câmara dos Deputados decidiu que vai usar os serviços da SMP&B até dezembro, quando vence o contrato, para então realizar licitação para a escolha de uma nova agência. A Assembléia Legislativa de Minas anunciou ontem que vai suspender o contrato com a SMP&B, de R$ 10 milhões, que venceria em maio de 2006. Principal cliente da DNA, o Banco do Brasil suspendeu a veiculação de novas campanhas. Para a DNA, a situação é especialmente grave porque suas contas bancárias estão bloqueadas desde sexta-feira passada, numa decisão em favor do INSS, com quem tem uma dívida de R$ 8,7 milhões. Por determinação da Justiça, os maiores clientes da agência - o banco, a Eletronorte, a Telemig Celular e a Amazonas Celular - só podem pagar serviços com depósitos em juízo. "A agência está parada", comentou o advogado Ildeu da Cunha Pereira. A agência sofreu ontem novo tombo, com a descoberta de notas fiscais que estavam sendo queimadas na casa do irmão do contador da empresa, Marco Aurélio Prata. O risco de demissão de 150 funcionários - entre eles vários profissionais de criação premiados nacionalmente - preocupa o mercado publicitário mineiro, onde a maior parte das agências são de pequeno porte. As contas privadas representam 55% da receita da DNA, segundo informação da assessoria de imprensa. A expectativa da direção da agência é de os 23 de história da empresa sejam levados em consideração. "Quem conhece a agência de perto, seja como cliente ou fornecedor, reconhece a sua seriedade e a sua competência", diz o texto da nota enviada ao Valor. Na SMP&B, onde os clientes da iniciativa privada têm peso de 70% no faturamento, a ordem é não falar com a imprensa. Segundo fontes próximas aos diretores da agência, está valendo a "política da avestruz". A avaliação é de que, enquanto a "marca Marcos Valério" estiver ocupando o alto das páginas do jornal, qualquer explicação da agência não merecerá mais do que poucas linhas. Por isso, o presidente Cristiano Paz vai esperar o momento certo de falar. A SMP&B, que atende os Correios, tem clientes da iniciativa privada como a siderúrgica Usiminas, segunda maior fabricante de aços planos do país. Na sexta-feira passada, a entrega do Prêmio Colunistas de Brasília colocou profissionais do mercado publicitário numa verdadeira saia justa. A SMP&B foi escolhida a agência do ano e os Correios, anunciante do ano. Em meio ao escândalo que trouxe à tona todo tipo de revelação sobre a agência mineira, dar a premiação máxima à SMP&B foi, no mínimo, constrangedor para os organizadores. Representantes da agência e dos Correios não compareceram ao evento. Na avaliação do presidente da Federação Nacional das Agências de Propaganda (Fenapro), José Antônio Calazans, a sobrevivência das duas premiadas agências mineiras vai depender do posicionamento que as empresas tomarem. "Há de se ter velocidade em dar satisfação aos agentes do mercado, clientes, veículos e fornecedores", comentou Calazans. "A agilidade é que vai definir como as agências vão sair desta história". Em seu depoimento à CPI dos Correios, na semana passada, o publicitário Marcos Valério admitiu a derrota como publicitário, depois de tanta exposição negativa na mídia. "Minha carreira como publicitário, como empresário, acabou", disse ele. "Sou um morto vivo". Segundo o ranking Ibope/Monitor, a DNA foi a que mais cresceu no último ano entre as 30 maiores agências de publicidade do país. Seu faturamento em 2004 foi de R$ 70,5 milhões, 203% maior que os R$ 23,2 milhões registrados em 2003. A empresa ficou na 25ª posição no ranking das maiores agências do país.