Título: CPI fará devassa no Banco do Brasil, Rural e BMG
Autor: Maria Lúcia Delgado
Fonte: Valor Econômico, 15/07/2005, Política, p. A6
Crise Comissão quer informações sobre as operações dos bancos com o PT e outros partidos políticos
A CPI dos Correios pretende fazer uma devassa em operações de três bancos - Rural, BMG e Banco do Brasil - com os quais o PT fez movimentações financeiras, e checar se outros partidos políticos também têm ou tiveram relações com tais instituições financeiras. Requerimento aprovado ontem na CPI solicita que os bancos informem todos os contratos firmados com partidos. O Rural é o alvo central da CPI, devido ao expressivo montante financeiro movimentado pelo empresário Marcos Valério Fernandes de Souza e ao contrato do PT com o banco. Valério, sócio das agências de publicidade SMP&B e DNA Propaganda, foi avalista de um empréstimo de R$ 2,4 milhões do Rural ao PT. Foi a denúncia do deputado federal Roberto Jefferson (PTB-RJ) que trouxe o banco à baila: ele disse que na agência em Brasília eram feitos saques de políticos, o que confirmaria o suposto mensalão - pagamento a parlamentares em troca de apoio ao governo. Os parlamentares da comissão também aprovaram ontem a reconvocação de Valério e o requerimento que solicita ao Banco Central a realização de uma auditoria nas contas do Rural. Todos os gerentes do Rural que chefiaram nos últimos cinco anos a agência do Brasília Shopping - onde teriam sido feitos os saques citados por Jefferson - foram convocados a depor. A data não foi marcada. A CPI aprovou ainda a transferência dos sigilos bancários dos últimos cinco anos do cofre da agência do Rural em Belo Horizonte e outras praças que tenham relação com contas de Marcos Valério. Há a suspeita de que Valério "esquentava" dinheiro, ou seja, fazia uma operação triangular: sacava altos volumes de dinheiro e deixava no cofre do banco para evitar o rastreamento e transporte físico. A investigação de supostas irregularidades em licitações nos Correios passou a ser secundária na CPI. Marcos Valério e suas conexões com ex-dirigentes petistas e parlamentares tornaram-se o principal foco de apuração. Será chamado a depor na CPI o ex-procurador da Fazenda Nacional Glênio Guedes, que fez saques de R$ 900 mil em contas da SMP&B. Ele vai esclarecer as ligações com Valério. Como membro do Conselho de Recursos do Sistema Financeiro, Guedes fazia pareceres sobre recursos de instituições financeiras contra punições impostas pelo BC, Comissão de Valores Imobiliários ou pela Secretaria de Comércio Exterior. O Rural foi uma das instituições julgadas pela Procuradoria da Fazenda Nacional. Por consenso, a comissão também aprovou ontem a quebra de sigilos de Cristiano de Mello Paz, presidente da SMP&B; Geisa Dias dos Santos (do departamento financeiro da agência); e Alexandre Vasconcelos Castro (comerciante que fez saques de contas da SMP&B). A empresa Skymaster, que tem contratos nos Correios, também teve os sigilos quebrados. A CPI foi palco ontem de nova guerra política entre governistas e oposicionistas. A base aliada conseguiu evitar a votação de requerimentos que pediam a convocação do deputado e ex-ministro José Dirceu, de Luiz Gushiken (Secretaria de Comunicação), José Genoino (ex-presidente do PT), Marcelo Sereno (secretário de comunicação do PT) e a quebra de sigilo dos ex-dirigentes petistas José Genoino, Delúbio e Sílvio Pereira, e Dirceu. Todos autorizaram a quebra de seus sigilos, mas a oposição questionou a validade jurídica e queria votar os requerimentos. Como não havia acordo, os requerimentos teriam que ser analisados um por um. O governo insistiu em votar primeiro só os requerimentos consensuais. A oposição pediu uma inversão de pauta, mas foi derrotada por 15 votos a 11. A análise dos requerimentos polêmicos ficou para a próxima semana, quando a CPI ouve os depoimentos de Delúbio e de Sílvio Pereira. Esse debate sobre a quebra de sigilos e convocações de petistas rendeu horas, troca de insultos e quase agressões físicas entre parlamentares. "Isso é inacreditável", reclamava o presidente da CPI, Delcídio Amaral (PT-MS). "Essa maioria do governo é envergonhada. Querem ganhar tempo e evitar a votação dos requerimentos", acusou o deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR). Os petistas alegaram que o debate era irracional, pois os ex-dirigentes petistas e o ex-ministro José Dirceu colocaram voluntariamente os sigilos constitucionais à disposição da CPI. Delcídio Amaral informou que a consultoria jurídica da CPI já analisou a autorização de quebras de sigilos dos ex-dirigentes petistas e que os textos foram devidamente reformulados para evitar polêmicas. Ele envia hoje os pedidos voluntários de quebra de sigilo ao BC.