Título: Mercado já vê sinais de desaperto
Autor: Luiz Sérgio Guimarães
Fonte: Valor Econômico, 15/07/2005, Finanças, p. C1

Copom Opção pela estabilidade da Selic em 19,75% se alinha ao discurso conservador

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central tende, em sua reunião mensal agendada para a próxima quarta-feira, a manter a taxa Selic em 19,75% pelo terceiro mês em seqüência apesar de já existirem condições econômicas e técnicas para o início do movimento de baixa. De 12 analistas consultados ontem pelo Valor, nove acreditam na estabilidade do juro e três apostam em declínio de 0,25 ponto percentual. Mesmo os que crêem na estabilidade admitem que a posição é mais de cautela, destinada a dar tempo para a consolidação do cenário benigno desenhado para a inflação e atividade econômica. Os analistas entendem que a frase do presidente Lula, dita em Paris, sobre juros não representa uma fratura da autonomia do BC. Até porque a declaração - "a reversão das expectativas inflacionárias e as medidas de controle fiscal sinalizam uma trajetória consistente de queda para a taxa de juros" - não foge aos fatos já conhecidos e à tendência consensual. O economista Alex Agostini, da GRC Visão, observa que a fundamentação necessária ao início do recuo da Selic já está presente. Mas a tendência é de o governo não mexer em nada por enquanto - nem na cúpula do BC nem na política monetária - para não ser acusado de usar o juro para abafar a crise política. Para preservar a credibilidade do BC, não haverá troca na presidência do banco esta semana, nem redução da Selic. Em agosto, na opinião de Agostini, haverá grande chance de o juro ceder 0,25 ponto. Quando o BC escreveu na última ata que a Selic permaneceria em 19,75% por "tempo suficientemente longo" não esperava, como de resto todo o mercado, a atual excelente conjugação de fatores. São eles: queda nas expectativas de inflação (o IPCA previsto pelos bancos para 2005 está em queda há oito semanas), deflação corrente, crescimento moderado da indústria (o que não interessa ao BC é a expansão muito forte) e cenário externo amplamente favorável. Tudo isso autoriza a baixa da Selic para 19,50% já no dia 20, o que só não será feito por uma questão política. O coordenador de finanças do FAAP-MBA, Carlos Ayres, diz que o Copom já pode reduzir a taxa mas por razões puramente econômicas e técnicas. "A preocupação do BC sempre foi com a meta de inflação a longo prazo. E não há pressões à vista", diz. A capacidade instalada da indústria está com nível de ocupação aquém do considerado crítico pelo BC. O câmbio deve persistir apreciado e as deflações apuradas pelos IGPs sinalizam preços administrados menores no futuro. Os economistas que apostam na manutenção da Selic em 19,75% agora em julho se dividem sobre o mês em que o Copom deverá começar a reduzir a taxa. As apostas oscilam entre agosto e outubro. Mas a maioria acredita que iniciará o pouso da taxa com corte pequeno, de 0,25 ponto. Apenas o economista-chefe da Sul América Investimentos, Newton Rosa, considera provável uma redução inicial de 0,50 ponto na reunião de setembro. "Quando o BC reunir elementos suficientes para concluir que a inflação está convergindo à meta, poderá agir de forma mais audaciosa", diz Rosa. O economista Jankiel Santos, do ABN AMRO Real, diz que o BC adotará no caminho de volta o mesmo ritmo comedido usado na escalada que começou em setembro de 2004 e terminou em maio de 2005. "Ele foi conservador ao subir o juro e será igualmente conservador ao reduzi-lo", diz Santos. É justamente esse conservadorismo que poderá empurrar o país a uma recessão, diz o consultor Miguel Daoud, da Global Financial Advisor. "Tudo está ajudando o BC, até a crise política. A cena política está esfriando a atividade, reduzindo consumo e investimento", observa Daoud. O economista sênior do WestLB, Adauto Lima, vê 60% de chances de o BC iniciar a trajetória de queda da Selic já na reunião de agosto do Copom. O BC tende a esperar a consolidação dos dados sobre inflação e atividade econômica. Não se sabe, por exemplo, se a recuperação da indústria em maio foi apenas um repique ou algo que pode indicar uma tendência. Para o economista do Banco Modal, Marcelo Castello Branco, não dá para ter certeza sobre os efeitos da retomada da indústria sobre os preços. O economista Bernardo Mota, da Máxima Asset, diz que os indicadores antecedentes projetam para julho uma expansão industrial de 0,6%. A persistência do crescimento deverá protelar para setembro qualquer decisão de corte da taxa. O professor de economia da UFPR, José Luís Oreiro, utilizou um modelo econométrico VAR com restrição para prever as duas próximas decisões do Copom. O modelo foi alimentado com dados referentes a preços, juros, produto, câmbio e moeda, no período de janeiro de 1999 a maio de 2005. O resultado permite a conclusão de que o BC irá reduzir a Selic em 0,25 ponto na reunião de quarta-feira e em 0,50 ponto na de agosto. Para o economista Marcelo Ribeiro, da distribuidora Pentágono, o BC não poderia perder nenhuma oportunidade concedida externamente para reduzir a Selic. Os dados relativos a junho do mercado de trabalho americano abriram uma "janela" para a queda do juro que deveria ser aproveitada. O cenário é de farta liquidez, propício a emergentes.