Título: Tarso inicia diálogo com a esquerda do PT
Autor: César Felício
Fonte: Valor Econômico, 18/07/2005, Política, p. A7

Crise Novo presidente poderá ceder espaços na direção do partido para as correntes mais radicais

Eleito para o diretório nacional do partido em 2001 contra o Campo Majoritário que domina o PT, o novo presidente da sigla, Tarso Genro, começa sua gestão sinalizando que poderá ceder espaços para a esquerda partidária. Logo após escolhido, no sábado, Tarso procurou no dia seguinte os aliados do ex-deputado Plínio de Arruda Sampaio (SP) à presidência na eleição interna de setembro, um dos mais radicais no espectro partidário. Na manhã de terça-feira, antes de viajar com Lula para a França, já que permanece até o fim do mês na condição de ministro da Educação, o novo dirigente tomou um café da manhã com outra candidata, a deputada Maria do Rosário (RS), a mais moderada entre os dissidentes. Dentro do grupo outrora comandado por José Dirceu, há grandes expectativas no diálogo com a parlamentar. Espera-se que Tarso, um incentivador da carreira da deputada no Rio Grande do Sul, a convença a desistir da candidatura, em troca de mais espaço na direção do partido. Os resultados das primeiras conversas foram tímidos, até porque o novo presidente ainda não se lançou de modo público candidato à reeleição. Maria do Rosário saiu do encontro dizendo que dificilmente deixará de ser candidata: alegou que exatamente por ser moderada, acredita que pode quebrar na eleição interna a polarização entre a chamada direita e a esquerda do PT. Admite contudo que algo mudou na forma de se conduzir o partido. "Depois de 40 dias de crise, o grupo dirigente foi obrigado a buscar um quadro que dialogue. A direção anterior não conversava com ninguém", comentou a deputada. O resultado final, segundo a gaúcha, poderá ser paradoxal: apesar de Tarso vir direto da Esplanada dos Ministérios para a direção partidária, a parlamentar enxerga a possibilidade de um menor enquadramento do partido aos interesses do governo no futuro. Pertencente à tendência Movimento PT, à qual está filiado também o líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia, Rosário relata que o grupo decidiu não apoiar o Campo Majoritário no processo de eleição interna depois que o grupo se reuniu no Rio de Janeiro e decidiu apoiar a incorporação de diversas premissas da política econômica do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, no programa de governo do partido. "Agora que eles procuram aliados para manter a hegemonia, vão ouvir que não podemos colocar o programa do PT do tamanho dos interesses do governo, mas sim buscar o oposto", disse. Entre os apoiadores de Raul Pont (Democracia Socialista) e Plínio (Ação Popular Socialista), as desconfianças em relação ao diálogo com o novo presidente são maiores. "O maior problema está na forma como Tarso foi escolhido, o que indica pouca disposição para negociar", afirmou o deputado Chico Alencar (RJ), apoiador de Plínio. De acordo com o relato do fluminense, em plena reunião do Diretório Nacional o Campo Majoritário se retirou, para escolher, entre si, o novo presidente. O nome de Tarso surgiu apenas para ser referendado pelas outras correntes partidárias. Segundo o parlamentar fluminense, o diálogo necessariamente passará pelo chamado corte na carne: as investigações e eventuais expulsões da sigla dos membros da antiga direção que estão sendo investigados. Com a Democracia Socialista, a cobrança será por gestos de autonomia em relação ao Planalto. "Não foi boa a maneira como ele chegou, mas Tarso pode levar seu mandato com independência", disse a senadora Ana Júlia Carepa (PA). Segundo o líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (SP), o fato de nem Tarso e nem o novo secretário-geral do PT, o ex-ministro do Trabalho Ricardo Berzoini, não terem apoiado a eleição de Dirceu em 2001 pouco significa. "Este movimento não significou nenhuma guinada. Tanto um como o outro têm identificação antiga conosco e se afastaram do Campo Majoritário por fatores meramente circunstanciais. Ambos estavam na nossa chapa antes da saída de Genoino", disse Mercadante. Ainda assim, a escolha de Tarso não foi um passo estudado do Campo Majoritário. Até a prisão do assessor do irmão de Genoino no aeroporto de Congonhas, tentando transportar dólares na cueca, a decisão, manifestada publicamente por vários integrantes do grupo dirigente, era pela permanência do dirigente. Após o fato, o próprio Genoino tomou a iniciativa de se afastar, na manhã do dias 9. Consultado para assumir em seu lugar, o ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência, Luiz Dulci, declinou. Tarso Genro já havia manifestado disposição em assumir e sua escolha tornou-se inevitável.