Título: Grupo de 20 deputados petistas articula migração para o PSOL
Autor: Sérgio Bueno
Fonte: Valor Econômico, 19/07/2005, Especial, p. A10
Insatisfeitos com o PT pela forma como têm sido tratadas as denúncias de financiamento ilegal de campanhas e compra de votos da base governista, parlamentares da esquerda do partido já falam abertamente em trocar de legenda após as eleições que definirão a futura cúpula petista, em setembro. Esse grupo, que pode chegar a quase 20 deputados, ainda não tem uma posição fechada, mas a alternativa mais levantada é a migração para o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), da senadora alagoana Heloísa Helena. "Há uma dificuldade enorme em permanecer no PT. A fotografia atual não nos conforta", admite o deputado Mauro Passos (SC), do grupo independente Movimento Socialista, ao qual ele estima que pertencem cerca de 20% dos petistas catarinenses. A esquerda prepara um encontro em Florianópolis, no início de agosto, para discutir a crise da legenda e a possibilidade de migrar para o PSOL. Passos ressalva que o assunto ainda é prematuro e diferenças regionais podem inviabilizar a mudança, mas enfatiza que qualquer atitude será tomada preferencialmente em bloco e o mês de setembro será "decisivo". No dia 17, o PT fará o seu Processo Eleitoral Direto (Ped). Depois, até o fim do mês, acaba o prazo de filiação a partidos para a disputa das eleições de 2006. O deputado Walter Pinheiro (BA) afirma que esse intervalo de apenas duas semanas entre as eleições internas e o prazo para filiação dificulta uma eventual troca de legenda. A preferência da esquerda petista, no entanto, é articular uma aliança entre as candidaturas de Raul Pont (Democracia Socialista) e Plínio de Arruda Sampaio (apoiado por um bloco de tendências radicais). O favorito na disputa, porém, continua sendo o ministro demissionário Tarso Genro. "Vamos tentar retomar os pontos centrais da história do PT. Se não conseguirmos, não restará alternativa que não irmos embora", diz Pinheiro. Ele reconhece que chegou a conversar com Heloísa Helena sobre a hipótese da transferência dos parlamentares, mas que "foi tudo mais de brincadeira". A ala identificada como esquerda petista inclui parlamentares como Antônio Carlos Biscaia (RJ), Chico Alencar (RJ) e Maninha (DF). O grupo defende que pessoas acusadas de ter alguma ligação com o "mensalão" se afastem temporariamente não só da cúpula petista, mas do próprio partido até que as apurações sejam concluídas de forma "rigorosa" e "conseqüente". Para Passos, é difícil acreditar que o ex-tesoureiro Delúbio Soares tenha sido o único da direção afastada do PT a saber (e negociar) empréstimos com o publicitário Marcos Valério. Passos diz que "as discussões são coletivas" e "ninguém tem essa autonomia" no partido, principalmente quando os valores negociados são tão altos e comprometem a situação financeira da legenda. "Não vamos participar de uma farsa", reage o deputado, em referência às explicações semelhantes dadas por Delúbio e Valério para os empréstimos. O líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante, afirmou ontem que a discussão sobre essas dívidas nunca foi feita pela direção do PT.