Título: Para Tarso, reeleição depende de crescimento
Autor: Sérgio Bueno
Fonte: Valor Econômico, 19/07/2005, Especial, p. A10

Crise Presidente do PT diz que ética "bolchevique" do partido pode ter desconhecido parâmetros éticos universais

O novo presidente nacional do PT, Tarso Genro, assume o cargo na próxima semana, convicto de que a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva depende de como o partido irá emergir da maior crise política de sua história e dos elementos que o próprio governo fornecerá para que a sigla "reencante" sua base "deprimida e perplexa". Para ele, a estabilidade macroeconômica "não pode ser um fim em si mesma" e o governo precisa promover um forte crescimento econômico com geração e distribuição de renda, redução dos juros, fim dos "excessos" de superávit e investimentos em infra-estrutura. O ainda ministro da Educação entende que as eventuais irregularidades no sistema de financiamento do partido são de responsabilidade das "direções intermediárias e superiores", que foram desatentas ou não organizaram controles capazes de evitar o problema. Segundo ele, se quadros do PT se envolveram nos fatos que vêm sendo revelados, o fizeram não devido a interesses pessoais, mas à aplicação equivocada de uma "ética bolchevique" e a uma "centelha messiânica" que leva alguns dirigentes de esquerda a se considerarem os "representantes do bem absoluto". A seguir, os principais trechos da entrevista: Valor: O governo acabou? O presidente deve desistir da reeleição? Tarso Genro: É muito cedo para dizer isto. É uma "praga" dos nossos adversários. A última pesquisa da CNT/Sensus mostra que o presidente mantém a respeitabilidade da população é e uma alternativa para um segundo mandato, mas isto vai depender muito mais de como o partido vai sair da crise do que propriamente o governo. Uma reeleição do presidente Lula não será uma reeleição em compota como foi feita no (governo do ex-presidente) Fernando Henrique, sentado em Brasília, simplesmente pela televisão. O presidente Lula é um líder popular, uma pessoa que mobiliza emoções e corações, que atiça a esperança. O governo vai ter que fornecer, neste processo, elementos que possam fazer com que o partido reencante a sua base, que atualmente está deprimida e perplexa. Valor: O que o governo deve fazer? Tarso: A estabilidade não pode ser um fim em si mesma. Precisamos demonstrar para as classes médias para baixo que as vantagens da estabilidade podem atingir toda a população com políticas fortes de distribuição de renda. Este capital simbólico deve ser trabalhado de maneira ponderada, mas dedicada. Valor: Isto confronta a proposta do déficit nominal zero? Tarso: Já há bastante gastos sociais. O que falta são altas taxas de crescimento econômico com um processo de geração e distribuição de renda, combinando uma redução bem calculada da taxa de juros, o cumprimento do superávit prometido e não os excessos e fortes investimentos em infra-estrutura para permitir o aproveitamento de mão-de-obra não qualificada. A proposta do déficit nominal zero não está clara para ser discutida. Se for com uma redução drástica da taxa de juros, pode ser uma saída, mas não creio que este seja o pensamento dominante. Valor: Mas, no fim das contas, a candidatura de Lula à reeleição não está assegurada? Tarso: A candidatura do presidente Lula permanece como a possibilidade mais importante do partido. O que temos que repensar é o fato de que ela não é mais simplesmente uma candidatura natural que se apresenta a sai vitoriosa. É uma candidatura ainda com boas possibilidades, mas há uma dificuldade adicional que não existia há seis meses: o fato de que o PT está na defensiva, politicamente cercado e com uma militância que tende para a apatia. Valor: O sr. acredita que o PT, na defensiva como está, tem condições de propor mudanças na economia? Tarso: Se o PT não propuser algo novo daria uma demonstração de mediocridade absoluta. O governo Lula foi um avanço excepcional em relação aos precedentes. Veja-se a riqueza das propostas das PPPs (Parcerias Público Privadas), da bolsa-família como política compensatória que já alcança 30 milhões de brasileiros pobres. Veja a proposta e as reformas que está fazendo na área educacional, a presença do Brasil no cenário mundial, o que fez em termos de estabilidade macroeconômica. Agora, o desenvolvimento por dentro do modelo atual não reduziu drasticamente as diferenças sociais. Valor: O governo do PT ainda não cumpriu o que prometeu? Tarso: O governo Lula ainda deve muito à sociedade. E deve principalmente para a nossa base social originária, que são os trabalhadores de média e baixa renda, a classe média e empobrecida e este vasto setor produtivo nacional que vem sendo onerado por juros dramáticos. Então dizer que temos que mudar para frente não significa deslegitimar o que fizemos, mas reconhecer que criamos as condições para uma transição para um modelo economicamente e socialmente mais justo. Valor: A direção do PT conhecia os empréstimos de R$ 40 milhões que teriam sido tomados por Marcos Valério e repassados à legenda? Tarso: Já temos informações suficientes para dizer que a dívida formal do partido não é esta. Mas, na possibilidade de que haja uma contabilidade, informal, esta dívida poderia ser até maior. O atual comando político, técnico e jurídico do partido não tem qualquer conhecimento dessa possibilidade de financiamento alternativo coordenado pelo ex-tesoureiro Delúbio Soares. Neste caso, teríamos uma contabilidade de campanha sob sua responsabilidade, que a direção que nos antecedeu não conhecia. Estou falando dos ex-presidentes José Dirceu e José Genoíno. Todos os dados que nos foram passados indicam uma dívida em torno de R$ 20 milhões, registrada nas formalidades contábeis do PT. Valor: Mas é possível entrar tanto dinheiro sem o conhecimento do comando do partido? Tarso: Há uma vasta experiência em nosso país de financiamentos não registrados de campanhas eleitorais. Isto não começou com a história do PT. De uma parte, porque sempre foi uma arma política usada pelos mais fortes economicamente. De outra, porque não havia uma cobrança da sociedade civil em relação a isto. Tudo o que está acontecendo agora e sendo revelado pode ser possível. Valor: O que será feito agora? Tarso: Precisamos fazer uma catarse, melhorar radicalmente os controles internos e repor o PT em um patamar de moralidade político-organizativa que nos permita superar esta fase. Assim como reconheço que não temos - e foi um erro político dizer que tivemos - o monopólio da virtude, o PT também não tem o monopólio dos erros originários do sistema político e de financiamento eleitoral. Valor: Como será a investigação interna sob seu comando? Tarso: O partido não é um tribunal e nem uma instituição policial. Não vai fazer processos stalinistas, oferecendo cabeças ao público para se redimir. Quem tem que apurar ilegalidade é a Justiça, a polícia e a Controladoria Geral da União. O partido tem que fazer processos de avaliação, aplicar seu estatuto, colaborando com as autoridades. Valor: E de quem é a responsabilidade? Tarso: O que ocorreu, se ocorreu, é de responsabilidade das direções intermediárias e superiores do partido. Portando, de todos nós que ou não prestamos atenção suficiente ao que estava acontecendo ou não organizamos controles fortes para evitar o que aconteceu. Mas não acredito que as pessoas que estão sendo apontadas tivessem se envolvido por interesse pessoal. Se essas pessoas se envolveram em alguma coisa deste tipo, aplicaram de maneira equivocada o que se pode chamar de uma "ética bolchevique" (partido que executou a revolução russa de 1917), que como dizia o velho (León) Trotsky (líder revolucionário de 1917), que existe uma moral nossa e uma moral deles. Ou seja, que não existem parâmetros éticos universais. Há uma espécie de centelha messiânica na história da esquerda, que leva determinados dirigentes em determinados momentos a se pensarem como os representantes do bem absoluto. Valor: O presidente sabia o que estava ocorrendo ou teve a confiança traída por assessores? Tarso: Um dirigente com a estatura que tem o presidente não consegue controlar todos os detalhes. E evidentemente alguns processos, decisões se alheiam da sua influência e sequer se comunicam com ela. Eu penso que foi isso que aconteceu, se é que ocorreram esses erros que estão aparecendo hoje, isso significa uma ruptura com a confiança que o presidente poderia ter nas nossas direções partidárias. Valor: O sr. assume a presidência do PT com a missão de reorganizar o partido. Como está a sua relação com a esquerda petista? Tarso: A esquerda do PT teve uma atitude correta com o partido. Não votou contra meu nome e se absteve por identificar na minha pessoa uma posição política com a qual eles não concordam, que eles chamam de reformista. Os movimentos que a esquerda fará daqui para frente eu não sei, mas certamente não será a de outorgar culpa a determinados indivíduos ou correntes de opinião. Porque se ocorreu um sistema de financiamento em escala nacional, originário de uma estrutura paralela, esse sistema foi aceito implícita ou explicitamente por todos. E todo mundo se "beneficiou" dele. Valor: Há risco de debandada de setores da esquerda? Tarso: Se ocorrer isso será ruim para a esquerda, para o partido e para a democracia, porque seria das por terminada, por parte da esquerda, uma experiência do PT que não ainda não chegou a sua melhor possibilidade. Seria desistir na primeira crise, que embora seja grave, é superável. Valor: O sr. será candidato do Campo Majoritária na eleição do PT em setembro? Tarso: Ainda não resolvi. Ao longo desta semana vou conversar com os grupos que fizeram acordo para a minha indicação, o Campo Majoritário, o Movimento PT. Vou consultar também o pessoal da esquerda antes de tomar uma decisão.