Título: Tesouro inicia troca de C-Bond por papel de mais longo prazo
Autor: Cristiane Perini Lucchesi
Fonte: Valor Econômico, 19/07/2005, Finanças, p. C1

Mercado Externo Governo não terá direito de resgate antecipado do novo título

O Tesouro Nacional vai trocar o C-Bond, o mais famoso dos títulos da dívida externa reestruturada em 94, por um bônus da dívida nova que paga a mesma taxa de juros, mas tem prazo de vencimento mais longo. Em troca do alongamento de prazo, o Tesouro vai abrir mão do seu direito de resgatar antecipadamente o papel. O novo título não terá opção de resgate antecipado ("call") como possui o C-Bond. O objetivo do Tesouro é "melhorar seu perfil de pagamentos futuros", segundo informou em comunicado. Na permuta serão emitidos títulos com juros nominais (cupom) de 8% ao ano, como o C-Bond, e com cronograma de amortização semelhante, porém deslocado no tempo por prazo a ser definido em leilão. O novo período de carência no pagamento do principal, a contar a partir de outubro, será do mesmo tamanho que a extensão no prazo final do título. Se o investidor concordar, por exemplo, em trocar o C-Bond, que vence em 2014, por um título que vence em 2019, estará também concordando em não receber amortizações por cinco anos a partir de outubro. A troca foi bem-recebida pelo mercado. "É uma idéia inteligente, que aproveita do bom momento para reduzir o risco de refinanciamento do Brasil e melhorar o seu crédito", diz Ricardo Amorim, chefe de pesquisa para a América Latina do WestLB. Os especialistas ouvidos pelo Valor acreditam que a maior parte dos investidores vai tentar trocar o C-Bond, pois ele vai se tornar um título sem liquidez após a operação. "O risco de que a 'call' seja exercida se torna maior após a troca", completa Amorim. Hoje, há US$ 5,6 bilhões em C-Bond nas mãos do mercado, e o volume vem se reduzindo desde 15 de abril de 2004, quando começou a sua amortização. São 21 pagamentos semestrais, até 15 de abril de 2014. Os especialistas acreditam que a ampla maioria desses US$ 5,6 bilhões será trocada e começaram a fazer os cálculos para estimar qual o valor da "call" que esse papel possui. Até quinta-feira, os bancos líderes da operação -JP Morgan e CSFB- vão aceitar ofertas dos investidores, que vão dizer o quanto eles aceitam de alongamento de prazo para se livrar da "call". As ofertas de alongamento de prazo serão feitas em períodos de três meses. Segundo pesquisa do Valor no mercado, não há consenso sobre o valor da "call". Especialistas chegaram a falar em 2,6 anos, 3 anos e 5 anos. Como não há consenso no mercado, é difícil saber qual o alongamento mínimo que o governo vai aceitar. Estigmatizado como o principal título da moratória de 94, o C-Bond foi o bônus com maior liquidez entre todos os emitidos pelo Tesouro brasileiro durante muitos anos. Até 2003 era o benchmark de todos os mercados emergentes. No ano passado, no entanto, o Global 40, título da dívida nova, voluntária, do Brasil, passou para a primeira posição, com giro de US$ 292,649 bilhões, na comparação com os US$ 222,353 bilhões do C-Bond, segundo a EMTA (Emerging Markets Traders Association). É justamente a opção de recompra antecipada a 100% do valor de face do C-Bond que reduziu sua liquidez e o interesse dos investidores mais agressivos, pois ela acaba por impor um teto para a cotação do título- que não ultrapassa muito 100% do valor de face. Sempre que o preço do título chega perto dos 101% os investidores passavam a temer que o Tesouro resgate o C-Bond a 100% e derrubam o preço do papel. Essa espécie de teto à cotação acaba funcionando como uma trava a maiores quedas do risco-Brasil, segundo explicou o secretário-adjunto do Tesouro, José Antônio Gragnani, há cerca de duas semanas. "Um papel sem a 'call' deverá ser negociado a um preço mais justo", disse Gragnani. Após a troca, o C-Bond vai perder peso no cálculo do risco-Brasil do índice EMBI + do JP Morgan, enquanto o título da dívida nova que nascer da troca, sem "call", passará a ter algum peso, dependendo de sua liquidez. "O risco Brasil vai oscilar mais livremente", concorda Amorim. Ontem, após o anúncio da troca, os investidores que estavam vendidos em C-Bond temendo o exercício da "call" passaram a se desfazer de suas posições, levando o preço do papel à máxima de 103,5% do valor de face, uma alta de 1% em relação à sexta-feira. No final do dia, foi a 102,57% do valor de face. O risco-Brasil chegou a cair para 397 pontos-base, para fechar a 401. Na operação de troca, há também o interesse do Tesouro de passar a ter preferencialmente papéis adquiridos voluntariamente pelo mercado, e não em uma renegociação forçada da dívida, como em 1994. Mas, mesmo se 100% dos C-Bonds forem trocados, a dívida renegociada não terá acabado. Segundo os dados mais recentes disponibilizados pelo BC, divulgados antes da amortização da dívida externa de abril, havia US$ 8,5 bilhões em dívida reestruturada em sete papéis chamados "bradies" -por causa de Nicholas Brady, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos em 94 que propôs os moldes para a reestruturação. O mais importante deles era o DCB, com US$ 3,312 bilhões, a serem amortizados até 2012; em seguida, o Par Bond , com US$ 1,534 bilhão. "Toda troca de bradies é bem-vinda, pois esses títulos trazem estampada a reestruturação de nossa dívida externa", comenta Amorim. Para ele, no entanto, o Brasil precisa fazer como o México, e tirar todos os seus "bradies" do mercado, para acabar de vez com o estigma da moratória.