Título: Juiz de Minas envia inquérito ao Supremo
Autor: Henrique Gomes Batista, Mauro Zanatta, Sergio Leo
Fonte: Valor Econômico, 20/07/2005, Política, p. A6

O juiz da 4ª Vara Federal de Minas Gerais, Jorge Macedo Costa, determinou o envio do inquérito da Polícia Federal sobre as denúncias de pagamento de "mensalão" para o Supremo Tribunal Federal (STF). A remessa de autos para a mais alta corte do país só é necessária quando, entre os alvos das investigações, há autoridades com foro especial, como deputados ou senadores. A medida irritou os delegados responsáveis pelas investigações, para quem ainda não havia indícios de participação de parlamentares. A inquietação dos delegados tem uma explicação: a decisão de Jorge Macedo Costa congela toda a investigação da PF. O inquérito será agora controlado pelo Supremo, onde o excesso de processos inviabiliza uma investigação ágil, como tem ocorrido recentemente no âmbito da PF. A participação da polícia, agora, ficará restrita a diligências determinadas pelo ministro-relator do caso no Supremo. Para os delegados, o juiz federal se adiantou aos fatos. Nenhuma das diligências feitas aponta para a participação efetiva de parlamentares. Os nomes dos deputados Roberto Jefferson (PTB-RJ) e Carlos Rodrigues (PL-RJ) como recebedores dos saques só apareceram no depoimento de Marcos Valério Souza à Procuradoria Geral da República. Para os agentes, o magistrado decidiu mandar o caso ao Supremo com base nas reportagens. A PF queria ouvir Valério de novo nesta semana para esclarecer a participação dos deputados e enviar o caso ao STF. Ontem, em entrevista ao Valor, o procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, reconheceu que ainda não há indícios de participação de parlamentares no suposto esquema do "mensalão". "A definição do foro do Supremo pressupõe o envolvimento de pessoas que tenham foro privilegiado. E isso ainda não há", disse. Na quarta-feira passada, Macedo Costa autorizou a realização de busca de documentos fundamentais para o andamento das investigações na sede do Banco Rural em Minas Gerais. A PF colheu duas caixas de papelão com centenas de cópias de fax com a identidade dos autores dos saques das contas das agências de publicidade SMP&B e DNA, de Marcos Valério. Denúncias apontam que a retirada do dinheiro serviria para financiar o pagamento do "mensalão". Em vez de autorizar a busca e análise do material pela PF, o juiz não deu permissão aos delegados para verem os papéis. Ele disse que organizaria os documentos dentro do inquérito e reenviaria à Polícia Federal até ontem. Em vez de remeter os papéis à PF, Macedo Costa determinou o envio do caso ao Supremo. A PF já havia ficado insatisfeita com outra decisão. Há duas semanas, os delegados pediram a realização de buscas nas sedes da DNA, da SMP&B e no escritório do contador de Marcos Valério. O juiz só autorizou a investida contra o contador, negando ações nas duas agências de publicidade.