Título: Saques envolvem PT, base aliada e oposição
Autor: Henrique Gomes Batista, Mauro Zanatta, Sergio Leo
Fonte: Valor Econômico, 20/07/2005, Política, p. A6

Crise Movimentação de contas de Marcos Valério comprova, na avaliação de membros da CPI, o "mensalão"

Dados da movimentação financeira das empresas do publicitário Marcos Valério sob o poder da CPI dos Correios demonstram que houve uma série de saques - alguns milionários - em favor de políticos, parlamentares e assessores de vários partidos desde 2003. A análise de pequena parte dos documentos começa a comprovar irregularidades e derruba, na avaliação dos oposicionistas, a tese de que os negócios irregulares de Valério com a base governista seriam apenas decorrentes de dívidas de campanhas eleitorais não registradas - o chamado caixa 2. "Há indícios muitos fortes de que pode ter existido o mensalão", disse o deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP), integrante da CPI. A análise da movimentação financeira das contas da DNA Propaganda e SMP&B Comunicações no Banco Rural em 2003 e 2004, segundo membros da CPI, demonstram que ao menos 38 pessoas realizaram saques de altos valores no período nas agências do banco em São Paulo, Belo Horizonte e Brasília. O total sacado já chegava a R$ 24 milhões no levantamento dos parlamentares até às 22h. Figuram na lista dos beneficiários recebida pela CPI o deputado Josias Gomes (PT-BA) - que utilizou sua identidade de parlamentar para o saque de R$ 100 mil -, Márcia Regina Cunha, mulher do ex-presidente da Câmara, João Paulo Cunha (PT-SP) que sacou R$ 50 mil, e Anita Leocadia, assessora do líder do PT na Câmara, Paulo Rocha (PA), que levantou R$ 320 mil. Os dados também mostram saques feitos por Vilmar Lacerda, presidente do PT-DF, e Raimundo Ferreira da Silva Jr., vice-presidente da sigla em Brasília. Nos demais partidos da base aliada, aparecem saques em nome do deputado Carlos Rodrigues (PL-RJ), e também do assessor do líder do PP na Câmara, José Janene (PR) João Cláudio Genú, e ex-tesoureiro da sigla. Genú, que teria levantado R$ 1 milhão, também poderia, na avaliação de um deputado oposicionista, envolver o nome do presidente da Câmara no caso, Severino Cavalcanti (PP-PE), já que atuou como tesoureiro informal em sua campanha interna no início deste ano. O ex-tesoureiro do PL afastado em fevereiro, Jacinto Lammas, ligado ao presidente da legenda, deputado Valdemar Costa Neto (SP), aparece na lista sacando R$ 200 mil. José Luiz Alves, assessor do ex-ministro dos Transportes Anderson Adauto, aparece sacando R$ 250 mil. O levantamento também pode afetar políticos da oposição. Paulo Menecucci é responsável pelo saque de R$ 200 mil. Indicado pelo então ministro Pimenta da Veiga (PSDB-MG) para os cargos de secretário-executivo e secretário de Radiofusão do Ministério das Comunicações, Menecucci também foi nomeado diretor-comercial dos Correios na gestão de Airton Dipp, em uma intenção do governo de atender pedido do governador de Minas Gerais, Aécio Neves. O caso de maior vulto até o fechamento desta edição é de David Rodrigues Alves. Deputados governistas o acusaram de ser ligado ao PSDB mineiro. Ele realizou saques de R$ 7 milhões. "O mais interessante é que os saques eram mensais, o que caracterizaria o mensalão", afirmou um parlamentar. A reportagem do Valor localizou David Rodrigues Alves, no endereço registrado na CPI, e falou com ele em um celular repassado por uma pessoa que estava no local. Ele disse que é policial, que está em serviço, mas que não tem nada a ver com a denúncia, que não sacou coisa nenhuma e desligou sem dar detalhes. A assessoria do governador Aécio Neves legou que ele seja ligado ao governador. Simone Vasconcelos e Geiza dos Santos, funcionárias do setor financeiro das empresas de Valério, também fazem saques volumosos. Somente Simone teria sacado mais de R$ 5 milhões. Em um dos saques, de R$ 650 mil, ela precisou utilizar carro-forte. Há também autorização para saques em nome de office-boys das empresas. Parlamentares da CPI informaram que os saques eram feitos em cheques administrativos. Alguns parlamentares informaram que esta estratégia permitiria que o saque fosse contabilizado em Belo Horizonte e os valores retirados em São Paulo e Brasília. O relator da CPI, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), disse que ficou impressionado com a prática dos saques mas ponderou que os recursos podem ter sido utilizados para o pagamento de dívidas de campanha, como sustentou Valério e o ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares em recentes depoimentos. "Para confirmar precisamos cruzar as datas dos saques com as eleições", afirmou o relator. A oposição afasta esta tese alegando que os saques foram realizados em várias parcelas. O ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha quer ver antes os documentos em poder da CPI antes de se pronunciar sobre o suposto saque de R$ 50 mil feito por sua mulher, Márcia. O líder do PT na Câmara, Paulo Rocha (PA), insiste na versão de que sua secretária, Anita Leocádia, esteve no prédio onde se localiza a agência do Banco Rural para uma consulta médica. O deputado Vicentinho (PT-SP) assegura que o Jair dos Santos que sacou R$ 200 mil não é o mesmo lotado em sua assessoria. "Ele é um assentado no interior de São Paulo e como eu nunca esteve nesse shopping, muito menos no rural". A reportagem do Valor não conseguiu localizar os deputados Josias Gomes (PT-BA), Carlos Rodrigues (PL-RJ) e o ex-ministro Pimenta da Veiga.(Colaborou Ivana Moreira, de Belo Horizonte)