Título: Varig quer descontar recebível com BB
Autor: Vanessa Adachi
Fonte: Valor Econômico, 20/07/2005, Empresas & Tecnologia, p. B2

Aviação O banco estatal teria cortado o crédito da companhia aérea depois do pedido de recuperação judicial

Ao mesmo tempo em que corre para colocar em pé o plano de recuperação judicial, os executivos da Varig precisam lidar com um problema mais imediato: a falta de dinheiro em caixa para rodar a empresa no dia-a-dia. Tanto assim que a ameaça de atraso nos salários persiste, apesar do alívio financeiro que a moratória da recuperação judicial deveria produzir. Dentro desse contexto, uma dura negociação está em curso com o Banco do Brasil, a única instituição financeira com a qual a Varig ainda mantinha um relacionamento comercial nos últimos tempos. De acordo com um alto executivo da empresa aérea, o BB teria cortado o crédito da Varig depois que a companhia ingressou com o pedido de recuperação judicial. A empresa vem tentando, sem sucesso, fechar uma operação de desconto de recebíveis de cartão de crédito com o banco. Atualmente, a Varig tem em mãos um estoque de cerca de R$ 130 milhões em recebíveis. Um dos motivos para a negativa da instituição, acredita esse executivo, seria a dificuldade do banco, assim como de outras instituições financeiras, de interpretar a nova Lei de Falências. O texto diz que empréstimos concedidos a partir da recuperação judicial não se misturam com a dívida antiga e têm prioridade no recebimento. São chamados créditos extra-concursais. No entanto, os bancos ainda olham essa "blindagem" oferecida pela legislação com desconfiança. "O desconto desses recebíveis é uma operação totalmente sem risco para o banco. O risco passa a ser o da bandeira do cartão de crédito e não o da Varig", argumenta o executivo. Recentemente, a companhia aérea conseguiu uma decisão judicial que liberou recebíveis de cartão que haviam sido dados em garantia de renegociações de dívida com a General Electric e com a Petrobras, feitas no passado. A intenção era justamente ter esses títulos em mãos para conseguir dinheiro novo para a companhia. O Banco do Brasil informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que não comenta o relacionamento com clientes. Conforme o Valor antecipou ontem, a Varig fechou a escolha do banco de investimentos UBS para assessorá-la na montagem da proposta de recuperação a ser apresentada aos credores. A equipe do banco que tocará o projeto será formada, principalmente, por executivos de Nova York, já que boa parte das negociações envolverá credores e investidores estrangeiros. O presidente da Varig, Omar Carneiro da Cunha, esperava para ontem a assinatura do contrato com o UBS. Segundo ele, uma das razões para a escolha do UBS é que o banco vai procurar recursos para a área em "um prazo curto". O UBS não concede empréstimos no país e o seu trabalho deverá consistir em estruturar uma operação de capitalização da empresa. A companhia tem quatro semanas para apresentar sua proposta de recuperação à Justiça. Depois, outros 120 dias para que os credores a aprovem. Na prática, entretanto, os entendimentos com os credores começam já nessa primeira fase, para que a proposta inicial esteja minimamente alinhada com interesses dos credores. A expectativa é que a proposta traga um mix de desconto de dívida, transformação de créditos em capital e cisão de ativos para venda a novos controladores. (Colaborou Cláudia Schüffner, do Rio)