Título: Dólar barato torna possível meta de 5,1%
Autor: Sergio Lamucci
Fonte: Valor Econômico, 21/07/2005, Brasil, p. A4

Conjuntura Câmbio valorizado pode levar inflação para alvo perseguido pelo BC; juro alto também ajuda

A inflação medida pelo IPCA pode terminar o ano próxima de 5,1%, a ambiciosa meta perseguida pelo Banco Central, possibilidade vista como remotíssima há alguns meses. A previsão média do mercado para o indicador recuou com força nas últimas semanas, caindo de 6,39%, em maio, para os atuais 5,67%. Há quem projete 5,4%. Mais que a redução do ritmo de atividade econômica, resultado da política de juros estratosféricos, os analistas apontam a valorização do câmbio e outros choques de oferta - caso do tombo dos preços dos alimentos - como os principais fatores que derrubaram as expectativas para o IPCA, referência para o regime de metas. Em 2004, o indicador ficou em 7,6%.

O economista Fernando Fenolio, da Rosenberg & Associados, prevê inflação de 5,6% este ano, mas considera possível que o IPCA fique entre 5,3% e 5,4%. Ele não descarta que o BC consiga cumprir a meta de 5,1%, embora ainda não seja seu cenário principal. De janeiro a junho, o IPCA acumula alta de 3,16%. Para que o alvo de 5,1% seja atingido, é necessário que a inflação mensal até o fim do ano seja de 0,31%, afirma Fenolio. "É algo difícil, mas não impossível." A persistência do câmbio valorizado por mais tempo que o esperado pode tornar realidade o cumprimento da meta. A Rosenberg estima que o dólar, atualmente em R$ 2,35, vai atingir R$ 2,55 no fim do ano. De janeiro para cá, a moeda caiu 11,5%. Segundo Fenolio, com a desaceleração da economia e a reversão das pressões provocadas pelo aço neste ano, o câmbio começou ter mais efeito sobre a inflação. No IPCA de junho, que teve variação negativa de 0,02%, os preços dos bens comercializáveis, diretamente influenciados pelo dólar, recuaram 0,06%. Os não-comercializáveis subiram 0,16%. O recuo do dólar tem sido o principal trunfo para derrubar a inflação, como mostram os preços industriais no atacado. Em junho, recuaram 0,71%, de acordo com a inflação medida pelo IGP-DI. Os analistas do Bradesco não titubeiam em apontar o dólar barato como o grande responsável pelo tombo da inflação corrente. Além disso, é a aposta cada vez mais forte de desvalorização modesta do câmbio até o fim do ano que leva o mercado a rever para baixo as projeções para o IPCA, avaliam eles. O departamento econômico do Bradesco estima inflação de 5,66% em 2005, em boa parte por projetar um dólar de R$ 2,50 no fim do ano. E os juros altos, não ajudaram a derrubar a inflação? O economista Alex Agostini, da GRC Visão, diz que a política monetária teve impacto sobre os preços, ao levar à desaceleração da atividade econômica. No entanto, ele avalia que as boas notícias no front inflacionário vieram em grande parte de produtos que não respondem diretamente aos juros altos, como os alimentos, mais sensíveis a choques de oferta, e dos que dependem fundamentalmente do comportamento do câmbio, como os bens comercializáveis. Para ele, isso indica que o BC não precisava ter aumentado tanto os juros. Os analistas avaliam que a política monetária atuou sobre os preços principalmente ao acentuar a valorização do câmbio. Os juros altos contribuíram para a queda do dólar num cenário já marcado pelo fluxo comercial elevado e a ampla liquidez internacional. A partir de março, quando o BC deixou de comprar a moeda americana para recompor reservas, ficou claro que usava a política cambial para controlar a inflação, avalia Fenolio. Os analistas esperam IPCA de 0,3% a 0,4% para este mês. É um número favorável para julho, mês em que a inflação é tradicionalmente mais alta por fatores sazonais, como o reajuste de preços administrados. O câmbio deve compensar parte das pressões. Com a expectativa de inflação comportada daqui para a frente, há a possibilidade de que o Banco Central corte a Selic em agosto, como diz o economista-chefe do Unibanco, Marcelo Salomon. Ele ainda acredita, porém, que a primeira redução será em setembro. Os mais otimistas acreditam que há espaço para reduzir os juros para 17% no fim do ano, caso da LCA Consultores, que projeta IPCA de 5,4% em 2005.