Título: Delúbio assume responsabilidade exclusiva por empréstimos
Autor: Maria Lúcia Delgado e Henrique Gomes Batista
Fonte: Valor Econômico, 21/07/2005, Política, p. A6

Execução orçamentária é responsabilidade do secretário de Finanças. Foi com esse argumento que Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT, assumiu sozinho, em depoimento ontem à CPI Mista dos Correios, a responsabilidade por seis empréstimos feitos no BMG e Banco Rural a empresas ou sócios de Marcos Valério Fernandes de Souza, cujo objetivo - alegado por ele e pelo empresário - seria pagar "dívidas não contabilizadas" do partido nas eleições de 2002 e 2004. A despeito da confissão de crime eleitoral e da comprovação, pela CPI, de saques de políticos nas contas das empresas de Valério, Delúbio recusou-se a citar nomes de beneficiados pelo caixa 2 do PT -"Todos os empréstimos registrados em nome do PT são de conhecimento da Executiva do partido. Os empréstimos feitos por empresas (de Valério) são da minha exclusiva responsabilidade". A responsabilidade solidária de Delúbio não é uma versão crível para a maioria da CPI. O ex-tesoureiro entrou na sala da CPI às 10h43, com um sorriso nervoso, e disse estar disposto a "explicar os fatos". No entanto, recorreu ao habeas corpus concedido pelo Supremo Tribunal Federal e não respondeu aos principais questionamentos dos parlamentares. Recusou-se a dizer quem recebeu o dinheiro dos empréstimos das empresas de Valério; não deu nenhuma informação sobre os acordos financeiros feitos pelo PT com outros partidos para as eleições de 2004; negou-se a citar nomes de fornecedores do PT que cobraram dívidas eleitorais; foi evasivo ao explicar as razões pelas quais escolheu Marcos Valério para fazer tais empréstimos. Disse ainda que não participou das negociações entre Valério e os bancos e, portanto, não podia falar sobre as módicas taxas de juros cobradas pelos bancos. Membro da Executiva Nacional do PT desde 1995, ele contou que a partir de 2003 começou a ser procurado por vários correligionários e aliados que tinham "dívidas não contabilizadas" e estavam sendo pressionados por fornecedores. O PT, disse o ex-tesoureiro, não contava com a disputa em segundo turno em oito Estados. "Todos nós nesta sala sabemos como são feitas as campanhas eleitorais", disse ele, arrancando protestos da CPI. Foi diante de tais dificuldades financeiras, segundo Delúbio, que ele sugeriu a Valério que as empresas contraíssem empréstimos para pagar o caixa 2 de campanhas do PT e outros aliados. O ex-tesoureiro evitou todo o tempo utilizar o termo "caixa 2", e traçou um histórico da vida financeira do PT para explicar as dívidas oficiais e o "dinheiro não contabilizado". Os empréstimos feitos por Valério, segundo ele, não foram saldados. O ex-tesoureiro saiu pela tangente todas as vezes que foi pressionado a dizer como iria pagar Valério. "É um processo que estou explicando à sociedade. É um contrato de confiança. Me reservo o direito de não falar", disse. Outra preocupação de Delúbio foi sustentar a versão de que não foi utilizado dinheiro público nos empréstimos de empresas de Valério com bancos, apesar de contratos de pelo menos duas estatais com o empresário - Correios e Eletronorte - terem sido utilizados como aval nas operações financeiras. Ele garantiu que ninguém se enriqueceu com tais operações. Sobre seu patrimônio, informou que possui apenas R$ 163 mil em duas contas correntes e um carro no valor de R$ 71 mil. Disse ainda que paga aluguel no apartamento que vive em São Paulo. Sem detalhar seu salário, afirmou que o rendimento familiar líquido é de aproximadamente R$ 13 mil. "É até vergonhoso meu patrimônio pelas minhas atividades", analisou. Quando questionado se ninguém no PT sabia de suas relações com Valério, ele sustentou a tese: "Nunca tratei desse assunto com ninguém no governo. No PT, tratei com as pessoas que tinham problema (dívidas eleitorais, e que teriam recebido recursos dos empréstimos)". "É difícil acreditar que Vossa Senhoria está esclarecendo um fato. Estava chovendo dinheiro e ninguém comentava isso (no PT)?", indagou o relator da CPI, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), lembrando que os saques feitos nas contas de empresas de Marcos Valério superam R$ 40 milhões. "Você vai ter que me convencer que agiu só. Eu não acredito que agiu sem autorização da cúpula palaciana. Não assuma isso só", disse a senadora Heloísa Helena (PSOL-AL), ex-petista. Além dos seis empréstimos feitos via Marcos Valério, o PT fez dois empréstimos "oficiais", nos mesmos BMG e Banco Rural, tendo Marcos Valério como avalista. A direção do PT, segundo Delúbio, sabia apenas dos empréstimos oficiais, de R$ 2,4 milhões e R$ 3 milhões, respectivamente. Também era de conhecimento da cúpula petista o contrato de leasing com o Banco do Brasil, no valor de R$ 21 milhões, para aquisição de computadores. A dívida oficial do PT com bancos é R$ 39 milhões, sem contar o contrato de leasing com o BB. Os empréstimos feitos pelas empresas de Valério a pedido de Delúbio somam R$ 69,3 milhões sem correção. A estimativa da CPI é que o saldo devedor atualizado supera R$ 93,4 milhões. Delúbio disse que o saldo devedor da parte "não contabilizada" é de R$ 45 milhões. Cabe a Marcos Valério, segundo Delúbio Soares, detalhar as garantias oferecidas aos bancos. O ex-tesoureiro afirmou que não tem nenhuma razão para desconfiar de Valério. Em depoimento à Procuradoria Geral da República, o empresário mineiro afirmou que o ex-ministro José Dirceu e o ex-secretário-geral do PT Sílvio Pereira foram citados por Delúbio como pessoas que poderiam garantir o pagamento dos empréstimos caso ele se afastasse da tesouraria."Nunca tratei deste assunto com José Dirceu", revidou Delúbio. Delúbio negou ter um relacionamento próximo com dirigentes do BMG e do Banco Rural, e também garantiu que nunca representantes de tais instituições financeiras solicitaram vantagens junto ao governo. "Temos que saber por quê foram escolhidos o BMG e o Banco Rural, e a coincidência da busca de empréstimos com a época em que foram presos vários doleiros pela Polícia Federal", pontuou o deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR), sub-relator da CPI. Ele disse ainda que a denúncia de crime eleitoral não pode ser o único foco da CPI. Os deputados do PFL também solicitaram ao Banco Central, via a comissão, informações sobre transações financeiras de fundos de pensão com esses bancos. Depois de 12 horas de depoimento, Delúbio negou que tenha sugerido à Procuradoria Geral da República a delação premiada. O depoimento de ontem trouxe um problema diplomático: no início da noite a Embaixada do Paraguai emitiu uma nota em repúdio ao uso da expressão "Operação Paraguai" para o suposto esquema de corrupção. A CPI dará uma resposta oficial.