Título: Sem acenos, BC mantém aperto
Autor: Alex Ribeiro e Luiz Sérgio Guimarães
Fonte: Valor Econômico, 21/07/2005, Finanças, p. C1

Reunião do Copom Selic permanecerá congelada em 19,75% até pelo menos 17 de agosto

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu, por unanimidade, manter em 19,75% ao ano a taxa básica de juros da economia. Foi o segundo mês seguido em que a taxa Selic - que se encontra no percentual mais elevado desde setembro de 2003 - permaneceu inalterada. O breve comunicado divulgado após a reunião não dá nenhum tipo de pista sobre quando a taxa poderá sofrer cortes. "Avaliando as perspectivas para a trajetória de inflação, o Copom decidiu, por unanimidade, manter a taxa Selic em 19,75% ao ano, sem viés", diz a nota. O Comitê volta a se reunir nos dias 16 e 17 de agosto. Em seus mais recentes documentos oficiais, o Copom sinalizou mais de uma vez que pretende manter a Selic elevada por um período "suficientemente longo de tempo", para garantir que os índices de preços convirjam para as metas de inflação de médio e longo prazos. Os motivos para a manutenção dos juros deverão ser conhecidos com maiores detalhes apenas na semana que vem, quando será divulgada a ata do encontro de ontem. O Copom vem adotando uma política monetária mais restritiva desde setembro de 2004. Em nove meses seguidos, elevou os juros em 3,75 pontos percentuais, de 16% para 19,75% ao ano. A partir de junho, com a melhora dos índices de inflação corrente, o Copom interrompeu o movimento de alta, mas não deu sinais claros de quando poderá afrouxá-los. De forma geral, o mercado esperava a manutenção dos juros neste mês. A maioria dos analistas já considera possível que o Copom inicie o ciclo de baixa da Selic no próximo encontro. Esta aposta já ficou nítida ontem no pregão de DI futuro da BM&F. O CDI previsto para agosto caiu de 19,67% para 19,65%, embutindo corte de 0,25 ponto. "De agosto não passa", diz o consultor Miguel Daoud, da Global Financial Advisor. Para ele, o BC precisa começar a derrubar o juro logo, sob pena de provocar recessão. Voz discordante, o economista-chefe do ABN AMRO Asset, Hugo Penteado, acredita que o ciclo de baixa só terá início em setembro ou outubro, mas os cortes serão profundos, em torno de 1 ponto. Para ele, da mesma forma que o BC agiu preventivamente contra a instalação de uma inflação de demanda, irá esperar de três a quatro meses antes de desapertar a política monetária. "Nunca na história do país o Banco Central atuou como agora, de maneira preventiva. As altas de juros sempre foram corretivas. Por isso não temos experiência histórica do movimento seguinte", diz. O diretor do Modal Asset, Alexandre Póvoa, acredita que o BC tentará desinflacionar a economia o máximo que for possível, para só então reduzir a taxa, não antes de setembro, de forma mais acentuada. Tenderá a manter o juro em 19,75%, já que tanto a balança comercial quanto a atividade econômica não estão mostrando números ruins. O tom das entidades empresariais e sindicais foi de crítica à decisão do BC de protelar o início da queda da Selic. Para o presidente da Fecomércio-RJ, Orlando Diniz, "o conservadorismo do Copom freia o bom desempenho do comércio de bens e serviços. O fôlego das empresas nos últimos meses, favorecido pela expansão do crédito e pelo bom resultado das taxas de emprego, pode estar se esgotando". Para o diretor do Ciesp, Boris Tabacof, "os sinais são claros, mas o Copom prefere não enxergar". A deflação ganha terreno a cada mês e as últimas sondagens feitas, tanto pela CNI como pela FGV, revelaram claramente o desânimo do empresariado. "O que o Copom quer mais?", pergunta. Em nota, a Firjan lamenta a decisão: "Nas últimas semanas, os indicadores mostram que a política monetária restritiva produziu seus efeitos sobre a inflação corrente e sobre as projeções futuras. O quadro econômico atual fornece, portanto, condições para o início do processo de redução da taxa".