Título: CPI esbarra nas fontes de recursos
Autor: Maria Lúcia Delgado
Fonte: Valor Econômico, 22/07/2005, Política, p. A7
Crise Sacadores são a parte miúda do esquema e já se teme que "operação abafa" limite investigações
Os dados já investigados até o momento pela CPI Mista dos Correios apontam, de acordo com avaliações de um grupo de parlamentares, que o empresário Marcos Valério de Souza consolidou-se no meio político como um grande operador de caixa 2 de campanhas eleitorais de diversos partidos e que esse amplo esquema não se restringe a crimes eleitorais, pois há implicações de corrupção em licitações públicas, tráfico de influência e até mesmo lavagem de dinheiro. O Valor consultou membros da CPI que alertaram para uma linha crucial das investigações, ainda timidamente explorada: a entrada dos recursos nas contas das empresas de Valério. Até agora, o foco da CPI tem sido para os saques nas contas das empresas, até porque são esses os documentos disponíveis até o momento. A fonte dos recursos, no entanto, é muito mais difícil de ser identificada - pois a maioria deve ter surgido a partir de depósitos na boca do caixa - e é o que ajudaria de fato a entender a lógica do esquema, que na opinião de parlamentares é antigo, devido ao volume de recursos em circulação e ao amplo leque de partidos políticos envolvidos. Já há alguns parlamentares que suspeitam de que haverá uma grande "operação abafa" de interesse político para que a origem do dinheiro não seja identificada, porque isso fragilizaria todo o sistema político nacional, várias legendas, homens públicos e empresas. "Há, sim, risco de pizza", disse um membro da CPI. A tese sobre o esquema seria a seguinte: instituições financeiras, empresários e empreiteiras fariam doações não oficiais para políticos. As empresas de Valério pegavam o dinheiro e repassavam aos partidos políticos. Para justificar a transação, Valério faria a lavagem de dinheiro com os recursos, possivelmente de duas formas: a) arquitetava empréstimos em bancos, conforme fez com parte do dinheiro movimentado pelo PT; b) firmava um contrato fictício com o político, de prestação de serviço de uma de suas empresas (publicidade), e emitia uma nota fria. Esses contratos podem ser superfaturados ou subfaturados, ao gosto do freguês e da necessidade orçamentária. O subfaturamento seria mais comum, para não elevar os gastos oficiais das campanhas eleitorais. Sendo assim, os serviços de publicidade seriam forjados em muitas campanhas eleitorais. Entre os parlamentares, há quem defenda inclusive uma intermediação de Valério com doleiros para lavagem de dinheiro. O deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR) já disse publicamente na CPI que curiosamente Valério recorreu ao expediente de contratar empréstimos em bancos num momento em que a Polícia Federal intensificou o cerco à lavagem de dinheiro e prendeu vários doleiros. O braço mais complicado do esquema - que esbarra, como costuma dizer a deputada Denise Frossard (PPS-RJ), em "meio Código Penal" que está no mundo do lado de fora do Congresso - seria a lavagem do dinheiro via corrupção no governo. Ou seja, a empresa doa para a campanha com a promessa de vencer uma licitação pública. "Estou absolutamente convencido que aconteceu isso com alguns contratos no governo do PT", disse um parlamentar do próprio partido. É aqui neste capítulo do esquema que entrariam os contratos milionários sob investigação na CPI, como o da Skymaster, um exemplo constantemente citado pelos membros da comissão. Para entender como foi que Valério começou a operar no mercado eleitoral, os membros da CPI lembram que ele entrou como sócio numa empresa em Minas com Clésio Andrade (PL-MG), hoje vice-governador de Minas e presidente da Confederação Nacional do Transporte. Na época, Andrade era do PFL. A SMP&B tem tradição no mercado mineiro - boa parte dos congressistas salienta que a empresa deve ser respeitada por ter o seu "lado sério" - e prestou serviços para governos mineiros, especialmente o do ex-governador Eduardo Azeredo (PSDB). Valério também era próximo do ex-ministro Pimenta da Veiga (PSDB-MG), como relatou na CPI, e de políticos do PMDB. Disse que pagou R$ 150 mil a Pimenta da Veiga por serviços de consultoria jurídica. Marcos Valério chegou aos braços do PT apresentado pelo deputado Virgílio Guimarães (PT-MG), segundo relatou ele próprio. Outros informantes asseguram que ele teria chegado ao PT por intermédio do vice-presidente, o mineiro José Alencar. O petista tem ótimas relações com os tucanos em Minas. Num momento em que o PT acumulava dívidas da campanha de 2002 e preparava-se para disputar as eleições, o ex-tesoureiro Delúbio Soares teria sido apresentado a um mundo mágico do financiamento de campanhas. Uma corrente do PT não tem mais dúvidas de que Delúbio Soares e o ex-secretário Sílvio Pereira atuaram junto a empresários e exerceram tráfico de influência para fraudar licitações públicas. "Era a empresa doadora para campanhas eleitorais quem vencia licitações em muitos casos", disse um membro da CPI. E se ficar comprovada a entrada de dinheiro desses grandes doadores nas contas de Valério, o enigma estará decifrado. Há uma preocupação na CPI com a criminalização antecipada de políticos que se beneficiaram com recursos desse esquema. Muitos, alertam os parlamentares, receberam orientações dos partidos para fazer os saques. E não tinham idéia de onde vinha o dinheiro.