Título: Lula, a crise política e as eleições nacionais de 2006
Autor: Rogério Schmitt
Fonte: Valor Econômico, 22/07/2005, Opinião, p. A10
Nenhum presidente com aprovação de quase 60% deixaria de pleitear a reeleição
A crise política inaugurada há dois meses é a mais grave vivida pelo país nos últimos dez anos, pelo menos. A rápida sucessão de denúncias de corrupção nos poderes Executivo e Legislativo, e também em empresas estatais, deflagrou a criação de duas CPIs mistas no Congresso Nacional (dos Correios e do Mensalão), assim como a ressurreição da CPI dos Bingos no Senado Federal. O Ministério Público e a Polícia Federal também estão conduzindo as suas próprias investigações. Mas a crise atinge os poderes Executivo e Legislativo de forma diferenciada. Para o governo, o principal efeito é a dissolução da coalizão parlamentar que sustentara o presidente Lula em sua primeira metade de governo. Cada um a seu modo, todos os partidos que integram a base aliada do governo (PT, PMDB, PL, PTB, PP e as pequenas siglas de esquerda) foram atingidos pelas suspeitas de corrupção. O governo federal simplesmente não dispõe mais de uma maioria parlamentar confiável devido às disputas internas entre os aliados. Nem mesmo a sempre inconclusa reforma ministerial poderia hoje alterar significativamente esse quadro. As presidências das duas casas do Congresso não estão nas mãos de aliados incondicionais do governo, e o PT não possui nenhuma grande liderança parlamentar capaz de reconstruir o pacto governista. Na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, o acúmulo de CPIs de alta visibilidade junto à opinião pública e à mídia oferece incentivos eleitorais aos parlamentares para que estes não se dediquem com a mesma intensidade ao trabalho legislativo ordinário (aprovação de emendas constitucionais, projetos de lei ordinária e medidas provisórias, por exemplo). A imagem e reputação pública da classe política - que, a propósito, nunca foram muito favoráveis - encontram-se seriamente comprometidas na percepção dos eleitores. As taxas de renovação parlamentar e de votos brancos e nulos poderão ser surpreendentemente elevadas na próxima eleição. Configuração que a crise está assumindo não permite atribuir probabilidades muito elevadas às hipóteses de que o presidente Lula não consiga chegar ao final do seu mandato (por impeachment ou por renúncia). No entanto, um dos cenários simulados pela última pesquisa eleitoral do Ibope permite especular para onde iriam os votos do presidente Lula caso ele não venha a disputar um segundo mandato nas urnas. Na simulação, Lula foi substituído pelo ministro Antonio Palocci como candidato do PT, enquanto o candidato tucano seria o governador Geraldo Alckmin. Os demais postulantes ao Palácio do Planalto seriam o prefeito do Rio de Janeiro César Maia (PFL), o ex-governador Anthony Garotinho (PMDB) e a senadora Heloísa Helena (PSOL). No cenário básico em que o presidente Lula concorre contra os mesmos candidatos anteriormente citados, 39% do eleitorado declarou que pretende reeleger Lula. Quando o nome de Palocci é apresentado no lugar de Lula, somente 4% do eleitorado - ou seja, pouco mais de 10% do total de eleitores de Lula - manifesta intenção de eleger o atual ministro da Fazenda. Esses 4% são também a mesma proporção do eleitorado que seria "herdada" por Geraldo Alckmin. César Maia e Heloísa Helena aumentariam em 3 pontos percentuais, cada um, o seu contingente de eleitores. O maior beneficiado pela saída de Lula da disputa presidencial seria Anthony Garotinho, que ganharia 11 pontos percentuais em suas intenções de voto. Mas a proporção de eleitores que votaria nulo ou em branco também aumentaria em significativos 10 pontos percentuais. De acordo com esse cenário, portanto, haveria hoje, na ausência de Lula, um segundo turno entre Garotinho (com 24% dos votos) e Alckmin (com 17%).
Oposição tem chances se conseguir descolar as taxas de avaliação do governo das taxas de intenção de voto em Lula
Mas a principal conseqüência política das últimas pesquisas de opinião pública é, sem dúvida, o descrédito do cenário em que Lula não é candidato à reeleição em 2006. Nenhum presidente com cerca de 40% de avaliação positiva do governo e quase 60% de aprovação pessoal deixaria de pleitear uma segunda candidatura, muito menos apoiado em sólidos fundamentos da política econômica. Nesse sentido, o único cenário razoável passa a ser a confirmação da candidatura à reeleição do presidente Lula. As sondagens de opinião comprovam, para além de qualquer dúvida razoável, que o presidente Lula segue sendo altamente competitivo na sucessão presidencial, e que ainda deverá começar a campanha como o nome a ser batido na disputa. É sempre uma tarefa muito difícil derrotar um presidente que disputa um segundo mandato. Mas, ao mesmo tempo, também é legítimo supor que o favoritismo de Lula na próxima campanha eleitoral ainda não é um fato consumado. A manutenção das taxas de avaliação positiva de Lula e de seu governo talvez esteja indicando que o melhor caminho a ser seguido pela oposição pode ser atingir o Lula candidato à reeleição, e não o Lula presidente da República. Nesse cenário, os incentivos seriam para que tucanos e pefelistas buscassem descolar as taxas de avaliação do governo das taxas de intenção de voto em Lula na eleição de 2006. Lula poderia continuar sendo um presidente bem avaliado, mas sem conseguir converter totalmente seus índices de popularidade em manifestações efetivas de voto na sucessão presidencial. Uma situação similar à vivida pela ex-prefeita de São Paulo, Marta Suplicy. Nas eleições municipais de 2004, a votação recebida por Marta nas urnas foi significativamente inferior à proporção de eleitores que avaliavam positivamente a sua administração. Para que isso aconteça, alguns requisitos são necessários. O primeiro seria a seleção criteriosa do candidato "anti-Lula" pelos partidos de oposição. Esse nome teria que ter baixas taxas de rejeição popular (como José Serra tinha na campanha eleitoral do ano passado), mas também um perfil alternativo àquele comumente atribuído a Lula (possivelmente o de um gestor competente, como o atribuído ao governador Geraldo Alckmin). O segundo requisito seria que esse candidato fosse apoiado por uma ampla coalizão (talvez reeditando a dobradinha PSDB-PFL que elegeu FHC em 1994 e 1998). Finalmente, a campanha eleitoral da oposição teria que associar o nome de Lula à imagem negativa do PT e às denúncias de corrupção em seu governo (algo que ainda não aconteceu). Essa estratégia preservaria o presidente no curto e no médio prazo, mas potencialmente daria à campanha eleitoral de 2006 tom mais agressivo do que o observado no pleito de 2002.