Título: Importação de bens de capital cresce e indica volta do investimento
Autor: Raquel Landim e Sergio Lamucci
Fonte: Valor Econômico, 25/07/2005, Brasil, p. A3
Conjuntura Consumo aparente de máquinas e equipamentos mostra recuperação de 2,4% em maio
Depois de um primeiro trimestre fraco para o investimento produtivo, os empresários aproveitaram a valorização do real para retomar pequenos projetos e modernizar suas fábricas. No segundo trimestre, o volume importado de bens de capital cresceu 6,2% em relação aos primeiros três meses do ano, em série já livre de influências sazonais. Esse crescimento ocorreu sem deslocamento da produção doméstica, que registrou modesta alta de 0,16% na comparação entre o bimestre abril-maio e a média dos três primeiros meses. Com esse desempenho, o consumo aparente de bens de capital (soma de produção e importações menos exportações), que estava em queda no início do ano, encerrou maio 2,4% acima de abril, pelo critério de média móvel trimestral, com ajuste sazonal. O volume exportado de bens de capital cresceu 40% no acumulado do ano até maio e 24% na comparação dos meses de maio de 2005 e 2004, indicando que ele não acelerou junto com a recuperação da produção, o que indicaria maior atendimento do mercado externo. O desempenho das empresas que produzem máquinas e equipamentos no primeiro semestre reflete essa recuperação. A receita obtida pela Siemens no segmento industrial aumentou 10% no primeiro semestre ante janeiro a junho de 2004. A fabricante de caldeiras CBC Indústrias Pesadas elevou o faturamento em 20% no mesmo período. A Voith Paper espera fechar em setembro o ano fiscal com alta de 22% na receita. Para os próximos meses, contudo, os empresários não descartam uma postergação de projetos, especialmente os de setores exportadores. O aumento do consumo de máquinas e equipamentos também foi acompanhado por uma recuperação na demanda por insumos da construção civil, segmento com peso bastante expressivo na composição da taxa de investimento. Em abril e maio, a produção destes insumos cresceu 3,4% em relação ao mesmo período de 2004. Esta dupla recuperação levou os analistas a projetarem uma melhora da taxa de formação bruta de capital fixo de 1% a 2% no segundo trimestre ante o primeiro sem influências sazonais. Para Celso Toledo, economista-chefe da MCM Consultores, é o nível de investimento que vai puxar o crescimento de 1% no PIB em igual período. As importações de bens de capital subiram expressivos 26,6% no primeiro semestre do ano ante igual período de 2004, liderando o aumento entre as categorias de uso, segundo dados da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex). Para os economistas do Bradesco, é significativo que o crescimento em bens de capital tenha ocorrido em volume, que subiu 26% nessa comparação, enquanto os preços caíram 0,1%. Segundo Fernando Ribeiro, economista da Funcex, o crescimento do quantum importado de máquinas e equipamentos está acelerando. Depois de crescer 14% em fevereiro de 2005 ante fevereiro de 2004, esse indicador subiu 26% na mesma comparação para março, 35% em maio e novamente 35% em junho. Em 2004, o quantum importado de bens de capital aumentou 10%, abaixo da alta de 18% do volume total de compras externas. "O primeiro trimestre do ano foi muito fraco para os investimentos, quase uma paralisação", afirma Júlio Callegari, economista do J. P. Morgan. "Hoje existem alguns projetos saindo da gaveta. Mas não é nada explosivo", completa. De acordo com empresários do setor de bens de capital, as importações e as vendas internas estão mais focadas em pequenos projetos de modernização e reposição do que em grandes investimentos de ampliação da capacidade produtiva. Para os grandes projetos, o câmbio valorizado funciona ao contrário: desestimula o exportador a ampliar sua escala de produção. Os fabricantes esperam um segundo semestre melhor por conta de projetos dos setores de petróleo, siderurgia e papel e celulose. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), as vendas do setor aumentaram 28% de janeiro a maio, saltando para R$ 27,1 bilhões. Newton de Mello, presidente da Abimaq, diz que o bom desempenho reflete a entrega de máquinas encomendadas em 2004. "Existe uma inércia nesse mercado", diz. A inércia é provocada pelo prazo de pelo menos seis meses para entrega do produto. O executivo ressalta que as empresas estão preocupadas com a demanda interna e atentos a eventuais desdobramentos da crise política. Adilson Primo, presidente da Siemens, relata um primeiro semestre "razoável", com alta de 10% na receita das vendas para os setores de óleo e gás, celulose e siderurgia. Ele avalia que há muito potencial nessas áreas, mas reclama do atraso nos projetos. "Ninguém está com pressa", diz ele, acrescentando que as empresas estão refazendo contas em função do câmbio. A multinacional alemã está preocupada com a sua divisão de produtos para o setor de energia, que representou apenas 20% do faturamento no semestre, quando deveria chegar a 35%. Segundo Primo, os investimentos em infra-estrutura estão em um patamar muito baixo e não ocorreram os leilões para geração de energia que estavam previstos. O executivo já perdeu a esperança de que qualquer projeto de Parceira Público Privada (PPP) saia do papel esse ano. "As perspectivas são boas para os próximos meses. Apesar da crise e do dólar, algumas empresas devem manter os investimentos", acredita Rodolfo Rodrigues, coordenador comercial e de marketing da fabricante de caldeiras CBC Indústrias Pesadas. Ele diz que houve redução no número de consultas no segundo trimestre, mas que o mercado começa a se reaquecer neste início de segundo semestre. Nestor de Castro Neto, presidente da América do Sul da Voith Paper, afirma que está está recebendo normalmente pedidos de reformas, mas há poucos grandes projetos em andamento. A empresa tem em carteira pedidos para operar até setembro. Depois, está mais complicado. O último grande pedido, de US$ 25 milhões, foi feito em dezembro. "Os pedidos estão postergados. Mas é importante ressaltar que os projetos não foram cancelados", diz o executivo. A Voith Paper atende, principalmente, o setor de papel e celulose. Para Castro Neto, a retomada dos projetos depende do corte de juros.