Título: Empresários pedem foco no ensino básico
Autor: Eduardo Belo
Fonte: Valor Econômico, 25/07/2005, SWAP DA EDUCAÇÃO, p. F1-4

O Brasil tem baixa competitividade internacional quando o assunto é recursos humanos. O problema nasce no ensino fundamental, que é fraco. Agrava-se no ensino médio, incapaz de atrair e reter alunos. E consolida-se no ensino superior, que abre vagas em cursos inconsistentes e sem relação com as necessidades reais do mercado. O diagnóstico, implacável, é repetido com poucas variações por entidades empresariais de todo o país. "A escola brasileira precisa transformar-se para responder aos desafios da qualidade e da permanência do aluno na escola", afirma o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf. O empresariado ainda não está familiarizado com o conceito do swap de educação, mas é unânime ao pedir mudanças no ensino e aclama qualquer chance de aumentar o investimento no setor. Fernando Mattos, diretor-presidente do Movimento Brasil Competitivo (MBC), vem acompanhando o assunto. "É uma idéia extremamente interessante e acho que o Brasil poderia se beneficiar dela, porque participou da discussão desde o início. Não acho que seja um instrumento só para países mais pobres", afirma. Há uma demanda por reformas porque o setor privado sofre diretamente os efeitos da educação ruim. Os poucos brasileiros que chegam ao ensino superior encontram escassas vagas nas áreas de ciências exatas. "Grandes empresários têm reclamado da dificuldade de encontrar bons engenheiros saindo das faculdades", diz Carlos Cavalcante, superintendente do Instituto Euvaldo Lodi (IEL), braço da Confederação Nacional da Indústria para ações nas áreas de educação, ciência e tecnologia). A maioria, porém, sai da escola muito antes dessa etapa, e sem condições de compreender textos nem assimilar novas técnicas. Tal preocupação ganhou sua forma mais recente no "Mapa Estratégico da Indústria 2007-2015", apresentado em abril pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). O estudo recomenda que o Brasil tente alcançar, até 2015, o desempenho apenas mediano que a Espanha teve em 2000 no teste Pisa. Trata-se de um exame internacional, feito a cada três anos com estudantes de 15 anos de idade. Em 2003, entre 41 países, o Brasil ficou em último lugar, empatado com Tunísia e Indonésia. O mapa considera esse indicador como um dos mais importantes à disposição do país e afirma que o baixo nível educacional da população é ameaça à competitividade, tão grave quanto o alto custo de capital ou a infra-estrutura deficiente. Ao adotar como referência os estudantes de 15 anos de idade, o estudo da CNI evidencia outro quase consenso no mundo corporativo: se o Brasil conseguir mais verba para o ensino - seja por meio do swap de educação ou por outro mecanismo -, esse investimento deve priorizar o ensino fundamental. "Há muitos problemas, mas se for preciso escolher um investimento, é na qualidade do ensino fundamental nas escolas públicas", afirma Cavalcante, do IEL. Mattos, do MBC, concorda. "Todos os problemas são importantes, mas o mais urgente é melhorar a qualidade do ensino fundamental e promover a inclusão no ensino médio." Essa lógica baseia-se no fato de que, em educação, não existem atalhos. "É sobre a educação básica que se constrói a qualificação profissional, seja de nível técnico ou superior", diz Skaf, da Fiesp.