Título: Tensão do mercado chega a Brasília
Autor: Maria Lúcia Delgado
Fonte: Valor Econômico, 26/07/2005, Política, p. A5
Crise Parlamentares dizem que, no momento, fazer impeachment é ressuscitar o PT
O quadro de instabilidade política tem levado empresários e representantes do setor produtivo a manifestarem, a parlamentares, preocupação com "o trânsito até 2006". Em consultas e conversas recentes, o meio econômico consulta parlamentares sobre onde poderá desembocar a crise e se há riscos de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não terminar o mandato. "Estão interessados em saber se o José Alencar é um vice igual a Itamar Franco", relata um parlamentar. "Dizem que um rebaixamento de juros rápido estraga a economia em dois meses, e é impossível consertar isso em um ano e meio, dois anos", acrescenta. A brusca reaproximação do presidente Lula dos movimentos sindicais e o fato de o discurso dele, no final de semana, ter reiterado a já tão rechaçada tese de golpismo das elites foram atos interpretados por políticos oposicionistas e até da base aliada como indicativos de que o próprio PT está em estado de alerta e teme que alguma denúncia afete diretamente a imagem do presidente. Esse comportamento de Lula, concluíram parlamentares, afetou diretamente os indicadores de mercado. Especula-se que o temor generalizado na Esplanada dos Ministérios seria explicado pelas seguintes razões: os sinais dados pelo empresário Marcos Valério de Souza de que poderá fazer novas revelações comprometedoras para se vingar de petistas; uma reação inesperada do ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares caso seja expulso do partido; prováveis revelações do doleiro Toninho Barcelona - que está preso em São Paulo - com políticos do PT; e a ira do ex-ministro José Dirceu, que se sente abandonado pelo governo e eleito como o principal vilão. Há, ainda, os que desconfiem ter sido essa estratégia de Lula minuciosamente arquitetada com auxílio do novo ministro do Trabalho, Luiz Marinho, na tentativa de selar previamente a aliança do presidente com a CUT e outros movimentos sociais para uma eventual reeleição em 2006. "Estão começando a falar de impeachment para parecer que há de fato esse risco. Fazer impeachment agora é ressuscitar o PT", conclui um adversário dos petistas. Oposicionistas reagiram até com um certo sarcasmo ao fato de ter surgido, no próprio PT, o debate sobre um possível processo de impeachment. "Eu sempre conspirei bem, mas não estou conspirando agora", brincou o senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA). O núcleo de tensão em Brasília é permanente e se agrava a cada dia, mas nem governistas nem oposicionistas querem discutir a tese do impeachment do presidente. "Estamos dizendo a eles (aos empresários) que um impeachment só virá por razões sólidas e até o momento não há nenhuma razão consistente para pedi-lo", definiu um desses políticos consultados. "Queremos evitar desestabilização. Não podemos deixar o Lula se afogar. Tem que ficar com a cabeça de fora, respirando", endossa outro parlamentar. Até representantes da base aliada vêem riscos de a estratégia do presidente Lula contaminar ainda mais a economia. "Nossa preocupação é com esse clima emocional. Emoção nunca foi boa conselheira. Esse discurso elite x trabalhadores é emocional, e pode trazer más conseqüências imprevisíveis se exponenciado ao exagero. Preferíamos que a emoção não fosse tanta e que a racionalização reinasse", analisou o líder do PMDB no Senado, Ney Suassuna (PB). Para o líder do PSDB, senador Arthur Virgílio (AM), o presidente Lula optou "por um caminho chavista que pode atingir a economia". "É um discurso incômodo. Se for por essa via, pode de fato não terminar o governo. Nossa economia está sólida demais para haver o risco de um chavismo aqui", criticou o tucano. "O presidente procura a base sindical dele, mas jamais terá os intelectuais de esquerda a seu lado", concluiu senador Antônio Carlos. O deputado Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR) considera que a crise, antes restrita à política, passou a ser também institucional e econômica. Preocupado com os desdobramentos do momento político, Hauly começou a discutir no Congresso e pretende levar à Executiva Nacional do PSDB a tese da antecipação das eleições gerais de 2006. Segundo ele, os crimes se avolumam e pode-se chegar a um cenário em que seja impossível julgar e punir todos os políticos envolvidos. "Se fôssemos um país com a democracia consolidada, o Parlamento já estaria dissolvido e o gabinete do presidente já teria caído. Aqui estamos engessados sob o manto do presidencialismo", disse Hauly. A idéia do parlamentar é que seja feito um pacto suprapartidário social e econômico para garantia da governabilidade após a eleição. O presidente Lula poderia, segundo ele, tentar a reeleição, se considerasse viável. "Estou antevendo o agravamento da crise e colocando na mesa novas possibilidades", diz ele. Outros parlamentares, como o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) e a senadora Heloísa Helena (PSOL-AL) já demonstraram simpatia à idéia.