Título: Tesouro suspende compra de dólar e aguarda calmaria
Autor: Alex Ribeiro
Fonte: Valor Econômico, 27/07/2005, Finanças, p. C1
O secretário-adjunto do Tesouro Nacional, José Antônio Gragnani, anunciou que irá adotar uma política mais cautelosa no mercado de câmbio e de juros enquanto prevalecer o cenário de alta volatilidade. As operações de compra de dólares do Tesouro no mercado de câmbio foram suspensas a partir de segunda, e foram reduzidos os volumes de títulos públicos ofertados nos leilões realizados ontem. A estratégia mais cautelosa do Tesouro é a primeira reação concreta do governo para evitar que a crise política contamine a economia - embora Gragnani evite fazer diagnósticos sobre os fatores que exacerbaram a volatilidade no mercado. "É difícil definir as causas da volatilidade", disse. Neste ano, o Tesouro programa comprar até US$ 9,477 bilhões no mercado de câmbio para honrar compromissos da dívida externa. "Nosso compromisso sempre foi fazer essas aquisições de modo a não adicionar volatilidade no mercado", disse Gragnani. "Neste momento, o Tesouro está fora do mercado até que as coisas voltem ao normal." Gragnani sustenta que a suspensão temporária das aquisições não deverá prejudicar o plano de financiamento da dívida externa. "Nossas aquisições de dólares estavam um pouco adiantadas em relação ao programado", disse. Segundo ele, o Tesouro aproveitou o quadro de farta liquidez para atuar de forma "mais arrojada que a programada". O Tesouro também agiu ontem de forma mais cautelosa no mercado de títulos, vendendo cerca de R$ 2 bilhões a menos do que colocou na semana imediatamente anterior. "Agimos de forma mais cautelosa para não adicionar mais volatilidade." Ontem, foram vendidos R$ 2,1 bilhões em LFTs; R$ 1,7 bilhão em LTN; e R$ 80 milhões em NTN-F. O secretário diz, porém, que o menor volume de títulos leiloado não causa prejuízos ao plano de financiamento do Tesouro, pois nas semanas anteriores as colocações foram mais fortes do que o previsto. No mês, foram renovados R$ 45 bilhões dos R$ 46,8 bilhões que vencem. "Esse tipo de estratégia não é nenhuma novidade", disse Gragnani. "No ano passado deixamos de vender títulos e até passamos a recomprá-los." "Houve comentários no mercado que que havíamos diminuído muito a oferta por causa da volatilidade", disse. "Em parte, foi devido a uma atitude mais cautelosa, mas é bom lembrar que o volume seria naturalmente menor do que nas semanas anteriores porque já havíamos rolado quase todo o vencimento." Julho teve alto volume de vencimentos porque é um dos meses que o Tesouro chama de cabeça de trimestre, em que se concentram os prazos de papéis prefixados. Em agosto, o volume de vencimento da dívida será menor - R$ 28 bilhões -, com maior presença de papéis pós-fixados. O secretário reafirma que o Tesouro tem um colchão de liquidez de cerca de R$ 150 bilhões, que permitiria ficar até quatro meses sem emitir novos papéis, mas considera que não há sinais de que será necessário utilizá-lo. Gragnani diz confiar na superação em breve do período de volatilidade. Ele assinala que ontem o dia já foi menos agitado no mercado. "Acho que essa volatilidade é pontual", afirmou. "Os fundamentos da economia são sólidos e vão prevalecer."