Título: Parlamentares de atuação discreta no Congresso destacam-se na CPI
Autor: Vera Saavedra Durão
Fonte: Valor Econômico, 28/07/2005, Especial, p. A12

Uma nova geração de políticos já se destaca no Congresso a partir da instalação da CPI Mista dos Correios. Com o ocaso dos grandes coronéis da política, que além da renovação natural passaram, eles próprios, nos últimos anos, por crises de imagem devido a envolvimento em denúncias de irregularidades, e graças a uma rotina massacrante no Legislativo, onde só se votou basicamente Medidas Provisórias, o plenário não permitiu que algum grupo se sobressaísse e imaginava-se, até, que a fase era de esterilidade nesse campo. Com os trabalhos da CPI quase 24 horas no ar, pelo menos três dias por semana, estas personalidades saíram de seus esconderijos e se submetem à avaliação exigente da população. A CPI já evidenciou novas estrelas em todos os partidos. No PT, faz parte dessa geração o deputado, por São Paulo, José Eduardo Cardozo, primeiro mandato. Professor de Direito da PUC, ele conseguiu se eleger com facilidade exatamente pela elogiada atuação da CPI da Máfia dos Fiscais em São Paulo. O PT, com sua permanente luta interna e suas idiossincrasias, não havia permitido, até o momento, que o ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo se revelasse. Mesmo fazendo a luta partidária dentro da CPI, Cardozo conseguerealizar um trabalho objetivo de investigação. "O nível de audiência desta CPI é impressionante. A população fiscaliza as atuações dos parlamentares rigorosamente", conclui o petista. Além de estabelecer um diálogo permanente com os colegas de CPI, de governo ou oposição, Cardozo alerta para a necessidade de auto-crítica do PT em várias ocasiões. E também chama à razão os oposicionistas, quando necessário. Ao interrogar os depoentes, ele se preocupa em tentar expor contradições e esclarecer dúvidas cruciais. No depoimento de Renilda Maria Santiago Fernandes de Souza, esposa do empresário Marcos Valério, foi Cardozo quem demonstrou com clareza que ela tinha conhecimento profundo da realidade de algumas empresas do marido - como dívidas com o INSS -, apesar de alegar que nada sabia, nem mesmo a cor do tapete das agências. Outra revelação do PT é o deputado Carlos Abicalil (MT), também marinheiro de primeira viagem na Câmara. A atuação profissional como professor lhe dá a didática necessária para inquirir e atuar na CPI sem que seja exclusivamente para fazer discurso e a luta eleitoral, ao contrário dos demais deputados e senadores do seu partido. "As CPIs que modificaram carreiras políticas foram as que na verdade interditaram algumas carreiras", alertou Abicalil, de olho nas críticas do eleitor. No PSDB, a CPI contribuiu para a formação desta nova geração com três revelações: os deputados Gustavo Fruet (PR), Carlos Sampaio (SP) e Eduardo Paes (RJ). Entre eles, somente Paes está no segundo mandato, os outros dois são de primeiro mandato. Fruet, no entanto, sempre transitou pela política. "Nasci no comitê eleitoral", brinca ele, cujo pai foi prefeito de Curitiba. O parlamentar entrou para a vida pública exatamente na vaga no pai, que morreu 25 dias antes da eleição para vereador. A partir daí, tomou gosto pela carreira. Nunca, no entanto, o trabalho parlamentar de Fruet tinha aparecido tanto como agora. Já foi designado sub-relator de Finanças da CPI, resultado da sua firme atuação e organização na análise de volumosos documentos que chegam à CPI. Sampaio tem feito precisas inquirições, sobretudo pelo conhecimento jurídico. Promotor de Justiça, ele navega com desenvoltura em informações fornecidas pelo Ministério Público. O nome do parlamentar é citado por velhos conhecidos da política como uma importante revelação. O trabalho de Eduardo Paes é também reconhecido no seu partido e fora dele. Escolhido como pit-bull tucano, Paes sabe oscilar entre o discurso político e a objetividade e moderação. "Sou tucano. Estou ali no meio do muro", brinca ele, ciente da atuação ora como magistrado, ora como oposicionista convicto. A contribuição do PFL para esta nova geração vem da família de um dos maiores coronéis da política nordestina. É Antonio Carlos Magalhães Neto, de apenas 25 anos. No primeiro mandato, ele vem conquistando autonomia política, a despeito do passado do avô. Até há bem pouco tempo, era conhecido apenas como "grampinho", apelido conquistado na época em que ACM esteve envolvido no escândalo de instalação de grampo telefônico contra adversários e pessoas de suas relações afetivas, na Bahia. Hoje, é citado como ACM Neto. Estuda documentos, contratos, e faz arguições pertinentes. O próprio parlamentar decidiu moderar nas atuações, diante de críticas dos próprios eleitores. Também no primeiro mandato, outra que desponta é a deputada Juíza Denise Frossard (PPS-RJ). Não por acaso ela faz questão de colocar o termo "juíza" na frente do nome. Frossard é outra que emergiu do ostracismo a que o Congresso a relegou. Eleita como a mulher valente que desbaratou quadrilhas no Rio, ela tornou-se uma referência jurídica na CPI. É consultada pelos colegas e presta esclarecimentos relevantes. "CPI não é questão de governo, mas de Estado. Isso aqui não é carreira para mim. Estou prestando um serviço", argumenta ela. Para a juíza, a CPI é mais popular que o Big Brother. E o povo, acrescenta, "odeia" os que adotam o velho estilo político. Também em primeiro mandato, integra essa nova elite do Congresso o político escolhido para presidir a CPI, Delcídio Amaral, que está conseguindo agora, pelo equilibrio e moderação na condução dos trabalhos, sem deixar desassistido o governo a quem representa, o reconhecimento dos próprios integrantes. Como líder do PT o senador pelo Mato Grosso do Sul não havia conquistado o destaque de hoje. E, em segundo mandato, destaca-se o relator, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR). A sua seriedade não foi colocada em dúvida por nenhum membro da comissão.