Título: A culpa é do PT paulista, dizem os intelectuais de esquerda
Autor: Vera Saavedra Durão
Fonte: Valor Econômico, 28/07/2005, Especial, p. A12
Crise Na UFRJ, única voz dissonante foi a de Wanderley Guilherme
O Partido dos Trabalhadores (PT) e o governo Lula foram duramente criticados ontem por intelectuais e parlamentares de esquerda reunidos num debate na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O partido foi acusado de se transformar numa máquina eleitoreira, de perpetuação no poder para garantir a reeleição de Lula em 2006 e de Dirceu, em 2010. O governo foi acusado de não fazer distribuição de renda e governar para banqueiros e de cretinismo parlamentar. A única voz discordante no debate foi a de Wanderley Guilherme dos Santos, do IUPERJ, que chegou a dizer que qualquer membro da CPI dos Correios subscreveria essas críticas. Ele acusou a esquerda de não ter programa de governo e defendeu o governo Lula, dizendo que é muito melhor que o de FHC. Na debate, foram feitas críticas contundentes mas nenhum dos participantes apresentou saídas consistentes para a grave crise em que o país está mergulhado e que para Wanderley Guilherme, "ameaça a democracia". Carlos Nelson Coutinho - ex-militante do PCB e do PT, hoje militante do P-Sol - lembrou que o partido renunciou às suas bandeiras socialistas, enquanto Nelson Coutinho (ex-PCB e PT) afirmou que a máquina política criou "um exército de mercenários" com o mensalão. Saturnino Braga pregou a autocrítica para o PT, renovação de sua diretoria, expurgo do grupo paulista, retorno à bandeira da ética na política "sem radicalismo" e a indicação de um novo candidato a eleição presidencial de 2006 que não seja Lula. "Não vou sair do PT, porque isto seria oportunismo, mas não voto mais em Lula. O PT foi ao poder para governar para os banqueiros e rasgou a bandeira da ética e agora quer blindar Lula", vociferou. Jandira Feghali, do PC do B, criticou o PT por não ter um projeto para a Nação, porque se perdeu no eleitoreirismo. Ela criticou o que chamou de "busca desesperada pela maioria no Congresso", que vem desde a época de Sarney, gerando instrumentos espúrios e fisiologismo para alcançá-la. E foi dura com Lula ao afirmar que ele vive uma ilusão de classe ao se considerar representante de uma elite que há 500 anos governa o país. "Por isso quer a credibilidade deles (a elite), que não confia nele por não reconhecê-lo como um deles. Mas, eles não querem o seu impeachment, bem como os partidos de oposição, porque José de Alencar é temerário em relação a continuidade da política econômica de Palocci". A deputada espera uma saída para crise que seja boa para toda a sociedade. Luiz Pinguelli Rosa, coordenador do debate, denunciou o grupo paulista do PT como o principal responsável pela crise. Mas, não isentou a esquerda do pecado de ter "vendido este peixe ( Lula)". Luiz Werneck Vianna, do IUPERJ, lamentou o que chamou de "falência da República". Ele pressagiou o fim do PT e do PSDB, que a seu ver podem em breve ser um único partido. "Os últimos acontecimentos estão demonstrando que há uma identidade total entre PT e PSDB, porque até o dinheiro das campanhas é o mesmo. O programa é o mesmo no fundamental". A seu ver, estas duas torres gêmeas do sistema político brasileiro "irão de roldão" neste processo. Ele considera, porém, que a crise republicana brasileira obedece a um processo universal, com os partidos políticos em descenso. "Eles são para a democracia representativa, o que foi um outro tempo, quando imaginávamos que com partidos de extração popular, democráticos, socialistas, pudéssemos pelo sufrágio conquistar posições importantes na vida parlamentar". Para ele, a democracia é refém das mudanças econômicas neoliberais que foram entronizadas no país por Collor. "A democracia brasileira está sitiada e vive em estado de exceção permanente desde 1989. O primeiro ato foi o confisco dos ativos por Collor. Depois, passamos a ser governados por medidas provisórias e pela prática degradada do presidencialismo de coalisão que impera entre nós, que coopta e impede que a opinião popular, mesmo expressa pelo voto, se faça pesar". Wanderley Guilherme foi explícito na defesa do governo petista e do PT e criticou a esquerda pela falta de um projeto de governo. A seu ver, os programas sociais de Lula diminuíram a miséria no país e são importantes. "Dizer que são desprezíveis ou esmola ou mesmo algo compensatório é porque nunca se precisou deles. Seria importante que os membros da classe média intelectualizada das grandes cidades passeassem pelo país para ver o que significa receber uma bolsa família". Para ele, a crise foi gerada por articulação da oposição, que transformou uma denúncia de corrupção (dos Correios) numa questão macro política com um único objetivo: tirar Lula do páreo nas eleições de 2006. "Até hoje, porém, não tem ninguém que concorra com Lula, apesar da oposição ter sido bem sucedida no seu plano". Ele prevê, porém, que a dimensão da crise pode ser maior do que o PT e se espalhar, cobrindo todos os partidos e ameaçando a democracia.