Título: Mais um deputado petista surge entre os sacadores
Autor: Henrique Gomes Batista e Mauro Zanatta
Fonte: Valor Econômico, 05/08/2005, Política, p. A5

Crise CPI pediu informações detalhadas à Polícia Federal sobre operação e apreensão de documentos

Diante da frustração dos parlamentares que integram a CPI Mista dos Correios com o conteúdo de documentos enviados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na quarta-feira ao Congresso, a comissão decidiu, ontem, solicitar informações detalhadas à Polícia Federal sobre a operação de busca e apreensão de documentos no depósito do Banco Rural em Minas Gerais. Foram enviados ofícios ao diretor-geral da PF, Paulo Lacerda, e ao delegado Luiz Flávio Zampronha, responsável pelo inquérito do suposto esquema de corrupção. Pelas informações preliminares que chegaram à comissão, esses documentos mostrariam uma ampla lista de saques feitos no Rural das contas de empresas de Marcos Valério Fernandes de Souza. Os parlamentares que passaram horas analisando os documentos concluíram que as revelações não atingem tantas personalidades políticas, o que gerou inquietações. O relator da CPI, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), insinuou ontem que alguns documentos podem ter sido retirados do depósito do banco, e fez questionamentos sobre a ação da Polícia Federal. Foi a partir do depoimento de José Francisco de Almeida Rego, ex-tesoureiro do Rural, que a polícia mineira tomou conhecimento da existência da documentação que explicaria o esquema de distribuição de dinheiro a partir das agências de publicidade SMP&B e DNA Propaganda. A PF fez duas apreensões no depósito do Rural, segundo relato de Serraglio. Uma ocorreu às 16h, e a segunda somente às 20h40 do dia seguinte. O relator disse que a PF precisa explicar as razões para ter voltado ao depósito após a primeira apreensão. "Queremos mais detalhes sobre essa diligência", afirmou Serraglio. Os documentos apreendidos no Banco Rural pela PF em Minas Gerais foram, em seguida, enviados ao Supremo Tribunal Federal. A alegação é que haveria nomes de parlamentares na lista de sacadores. Como os parlamentares têm o direito de julgamento em foro especial, o procedimento correto era o envio ao Supremo. Entre os integrantes da CPI, circulava a informação que o STF teria mais de 120 nomes de sacadores. Quando os documentos chegaram à CPI, foi só decepção. "Imaginem: o cidadão (o ex-tesoureiro) que sabe dos dados, anuncia na PF: lá no depósito estão todos os documentos. Isso (a informação) vazou para todo mundo. De repente, na nossa coleta de dados não vem essa relação, não vem nada", analisa o relator. Quando questionado se levantava a possibilidade de destruição ou seleção de alguns documentos, Serraglio não foi incisivo: "Não tenho a hipótese do que possa ter acontecido". No dia em que os documentos chegaram, vários parlamentares, nos bastidores, se indagavam sobre a possibilidade de alguns documentos terem sido retirados pelo Rural antes da apreensão da PF ou até mesmo de desvios pelo longo percurso até Brasília. Pelo menos três parlamentares consultados pelo Valor consideram improvável qualquer uma das duas hipóteses. Para o relator, é preciso, apesar de todas as indagações, analisar detalhadamente toda a documentação que está disponível à CPI. "Ninguém tem muita paciência para olhar detalhes, papel por papel. Nas remessas enviadas pelo Supremo, apareceram muitos valores que ainda não tinham sido identificados (pela CPI)", concluiu Serraglio. A CPI Mista dos Correios identificou ontem mais dois deputados beneficiados por recursos das empresas de Marcos Valério Fernandes de Souza, acusado de operar o pagamento do mensalão no Congresso. O dinheiro foi passado aos parlamentares por meio de transferências eletrônicas (TED) das contas da SMP&B no Banco Rural. Romeu Queiroz (PTB-MG) aparece na lista recebendo R$ 50 mil em 31 de agosto 2004 com o CPF no. 081.698.996-53. Seu colega João Magno de Moura (PT-MG) também recebeu, via TED, R$ 29 mil - foram dois créditos: um de R$ 25 mil em 18 de agosto de 2003 e outro de R$ 4 mil em 18 de setembro de 2003. João Magno, através de sua assessoria, disse que nunca pediu dinheiro a Marcos Valério. De acordo com seu gabinete, o deputado solicitou extratos bancários detalhados de suas contas no Banco do Brasil e na Caixa Econômica Federal para ver se há essa transferência. O deputado confirma, entretanto, que em 2003 havia pedido recursos ao ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares, para pagar débitos de sua campanha a deputado federal. Romeu Queiroz não foi localizado pelo Valor durante a tarde e noite de ontem. Integrantes da comissão também analisaram as informações de quatro dos dez cartões de crédito de Marcos Valério e sua esposa, Renilda Souza. Ainda não foram encontradas provas de irregularidades, segundo parlamentares. "Os cartões deles mostram algumas compras de alto valor, sobretudo com roupas", afirmou o senador Alvaro Dias (PSDB-PR). A CPI teve acesso aos extratos dos cartões desde 2000. Os novos nomes aparecem em documentos apreendidos pela Polícia Federal mineira enviados ao Supremo Tribunal Federal (STF), considerados "pólvora pura" pelo relator da CPI, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR). "Na verdade, é um rastilho de pólvora que está pegando fogo e que pode até chegar a um barril", disse o deputado Eduardo Paes (PSDB-RJ). Para ele, a lista dos beneficiários não é bombástica, mas certamente novas descobertas serão feitas após os cruzamentos de informações. "As novidades serão conhecidas a conta-gotas", afirmou Paes. A CPI já havia identificado saques de parlamentares, agora confirmados pela lista do STF. O deputado Josias Gomes (PT-BA) fez dois saques de R$ 50 mil em 11 e 18 de setembro de 2003 por meio dos cheques no. 745780 e 745696. Carlos Rodrigues (PL-RJ) sacou R$ 150 mil com o cheque no. 403745 em 17 de dezembro de 2003. A lista confirma um saque de R$ 50 mil em nome de Márcia Milanesio Cunha, mulher do ex-presidente da Câmara, João Paulo Cunha (PT-SP). O ex-tesoureiro do PL, Jacinto de Souza Lamas, sacou R$ 1,65 milhão em onze ocasiões entre setembro de 2003 e janeiro de 2004. Anita Leocádia, ex-assessora do líder afastado do PT na Câmara, Paulo Rocha (PA) aparece como beneficiária de seis saques, que somam R$ 420 mil, entre junho e dezembro de 2003. Jair dos Santos, motorista do PTB nacional, sacou R$ 300 mil das contas das empresas de Valério em setembro de 2003. A nova lista - que foi obtida pela PF mineira - mostra que Francisco de Assis Novaes Santos, que antes figurava como beneficiário de R$ 1,250 milhão, já sacou R$ 2,650 milhões. Os saques de Aluizio do Espírito Santos, já somam R$ 270 mil. O dono de uma factoring de Belo Horizonte, Alexandre Vasconcelos Castro, aparece na lista com cinco saques de R$ 800 mil. A lista também confirma saques totais de R$ 850 mil em nome de João Cláudio Carvalho Genu, assessor do líder do PP na Câmara, José Janene (PR). José Luís Alves, ex-assessor do ex-ministro dos Transportes, Anderson Adauto (prefeito de Uberaba pelo PL), recebeu R$ 250 mil . A lista de saques também confirma que o assessor do ex-líder do governo na Câmara, deputado Professor Luizinho (PT-SP), foi beneficiário de saques de R$ 20 mil em 23 de dezembro de 2003. O deputado confirmou que o nome na lista é de seu assessor, José Nilson dos Santos, e que irá apurar os fatos a fundo. Na lista de saques da DNA no Banco do Brasil, a empresa Guaranhuns Empreendimentos, beneficiária de R$ 7 milhões em cheques nominais, é acusada pelo senador Alvaro Dias como "uma ponte para o Uruguai", numa referência à criação de uma off-shore que funcionaria no Uruguai para "lavar dinheiro sujo" de contratos das empresas de Marcos Valério com o governo. "É uma empresa fantasma que tem como responsável um laranja que detém apenas 1% de seu capital ", disse o senador. A Polícia Federal irá ouvir todos os sacadores identificados na documentação apreendida na sede do Banco Rural em Belo Horizonte. A primeira a ser ouvida será a ex-diretora financeira da agência de publicidade SMP&B, Simone Reis Vasconcelos. Ela sacou R$ 7,3 milhões das contas de Marcos Valério. Há um mês, Simone depôs à PF e mentiu: omitiu os valores sacados e falou que não se lembrava dos destinatários do dinheiro. Os agentes já descobriram que ela sacava o dinheiro na boca do caixa e distribuía a terceiros ali mesmo, na agência do Rural em Brasília. A PF já identificou pelo menos 30 sacadores. Muitos ligados a parlamentares. (Colaborou Thiago Vitale Jayme).