Título: BC se mantém inflexível ante a queda da inflação
Autor: Alex Ribeiro
Fonte: Valor Econômico, 29/07/2005, Finanças, p. C2

A ata da reunião de julho do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, divulgada ontem, mostra maior otimismo sobre as perspectivas de inflação e para a atividade econômica. Foi reproduzida, porém, a frase contida em documentos anteriores que sinaliza que a taxa básica de juros permanecerá no patamar elevado por período longo de tempo. A ata não dedica nenhuma linha a discutir os riscos de contaminação da crise política sobre a economia. "Vai se configurando, de maneira mais definitiva, um cenário benigno para a evolução da inflação", diz a ata do encontro que, pelo segundo mês seguido, manteve os juros básicos em 19,75% ao ano. "A política monetária passa a se defrontar com o desafio de garantir a consolidação dos desenvolvimentos favoráveis que se antecipam para o futuro." Na parte que explica porque manteve o juro em 19,75% ao ano, a ata limita-se a reproduzir palavras que usou anteriormente: "O comitê avaliou que a perspectiva de manutenção da taxa de juros por um período longo de tempo no nível estabelecido em sua reunião de maio (19,75% ao ano) seria capaz de proporcionar condições mais adequadas para assegurar a convergência da inflação para as metas". O documento reproduz ainda a advertência feita nas atas anteriores: no caso de "uma alteração no cenário prospectivo de inflação (...), a estratégia de política monetária será prontamente adequada às circunstâncias". As projeções de inflação do BC tiveram melhora em relação às feitas no mês anterior. Sem citar percentuais, a ata diz que, para dezembro de 2005, a inflação projetada caiu em relação aos 5,8% estimados no documento anterior, mas permanece acima da meta de 5,1% para o ano. Os índices caem abaixo de trajetória para cumprimento das metas já nos 12 meses encerrados em março de 2006 - pela projeção anterior, isso só ocorreria a partir de junho. O documento diz ainda que a projeção para dezembro de 2006, porém, "elevou-se marginalmente, mas permanece abaixo do centro da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN)", de 4,5%. Nos parágrafos anteriores da ata, o Copom descreve um cenário de deflação no atacado e varejo, e se mostra mais otimista quanto aos núcleos. O núcleo pelo conceito de médias aparadas recuou de 0,65% para 0,49% entre maio e junho; calculado pelo conceito de suavização, de 0,46% para 0,26%; e o de exclusão de alimentos e preços monitorados, de 0,57% para 0,36%. "Essas medidas subjacentes de inflação começam a se aproximar de patamares compatíveis com a trajetória de metas", diz a ata. No mês anterior, o Copom registrava que os núcleos estavam caindo, mas permaneciam em patamar incompatível com a trajetória de cumprimento da meta. Sobre o IPCA de junho, que registrou deflação de 0,02%, o Copom assinala que o recuo "resultou da bem-sucedida confluência de dois eventos pouco freqüentes": queda dos preços de produtos monitorados, puxada pela redução dos preços dos combustíveis (sobretudo álcool), e de alimentos (destaque para produtos in natura). O BC se mostra também mais seguro sobre as chances de a queda dos preços no atacado ser transferida aos índices de varejo. Em junho, registra o documento, o IGP-DI recuou 0,45%, a segunda queda seguida. "Acumularam-se evidências de uma acomodação consistente de preços no atacado, com efeitos benéficos sobre a variação de preços ao consumidor, que poderão se estender pelos próximos meses", diz a ata. Até o mês anterior, o Copom dizia apenas que a queda dos preços do atacado "poderia" ter efeitos benéficos sobre os preços do varejo. O Copom passou a trabalhar também com prognósticos mais favoráveis para a atividade industrial. Diz que o crescimento de maio, de 1,3%, foi "um resultado marcadamente superior ao antecipado por seus indicadores antecedentes e coincidentes". Para junho, o Copom prevê continuidade da expansão. Os indicadores de investimento, registra o documento, sinalizam "na margem um ritmo mais intenso de crescimento, determinado pelo aumento das importações líquidas e, principalmente, pela maior produção doméstica de bens de capital". O Copom registra ainda melhora no cenário internacional - especialmente o recuo das cotações do petróleo, um fator de risco que havia se deteriorado no mês anterior.