Título: Para Snow, juro alto ameaça retomada
Autor: Sergio Leo
Fonte: Valor Econômico, 02/08/2005, Brasil, p. A4
Conjuntura Secretário de Tesouro dos EUA elogia setor produtivo do Brasil por trabalhar com taxas elevadas
As taxas de juros básicas no Brasil, acima de 19%, são "insustentáveis" e ameaçam a retomada do crescimento, disse o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, John Snow, em jantar com economistas na residência do embaixador americano, John Danilovitch, na noite de domingo. Snow, que, ontem discutiu o assunto com o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, elogiou o setor privado brasileiro por permanecer ativo apesar dos juros altos. Segundo comentou, em tom de brincadeira, poucas empresas americanas conseguiriam obter taxas de retorno para o investimento, se submetidas às mesmas taxas de juros. "Talvez a Microsoft", brincou. Ontem, em entrevista coletiva, ao lhe perguntarem se havia questionado Palocci sobre as taxas de juros, Snow respondeu de forma indireta, sorrindo: "Falamos de crescimento e de inflação e ele indicou para mim que acredita ver um rumo seguro de crescimento." Tanto Palocci quanto Henrique Meirelles lhe garantiram que a inflação está em queda, relatou. "Eles são grande conhecedores em matéria de taxas de juros", respondeu, sorrindo, quando insistiram em saber se estava satisfeito com as explicações de Palocci sobre os juros. "Palocci é um expert", disse, ao classificar de "muito informativa" a "ótima discussão" travada sobre juros com o ministro da Fazenda. Depois da coletiva, Snow foi recebido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a quem deu os parabéns pelo desempenho da economia brasileira. No jantar e nas conversas que manteve ontem, em Brasília, Snow enfatizou a preocupação do governo americano com a manutenção do atual ciclo de crescimento econômico, no Brasil, nos EUA, e em países como a China e a Índia. Ele revelou que o nível de investimentos nos EUA é menor do que esperava, talvez pela aversão ao risco dos investidores, devido a regras mais rígidas de controle sobre as empresas de capital aberto. "A questão importante é se a economia continua a crescer e criar empregos, mesmo com taxas de juros que reconhece estar altas, mas caindo", disse. As perspectivas para a economia brasileira são muito boas, porque o governo tem executado "boas políticas". Na véspera, para os economistas com quem jantou, Snow disse ser "fã" de Palocci e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por insistirem em uma política de austeridade fiscal e combate à inflação, mesmo sob forte pressão política. Snow mostrou-se muito otimista em relação aos reflexos da crise política sobre a economia e o país. "Os mercados de valores e de câmbio estão tirando isso de letra", comentou, ao elogiar o desempenho dos indicadores externos do Brasil e repetir que acredita ver solidez nas instituições brasileiras para lidar com o problema. Ele relatou que, na conversa com Palocci, o ministro disse estar muito confiante na aprovação, pelo Congresso, de medidas da agenda "microeconômica", como a regulamentação do fim do monopólio estatal sobre resseguros e medidas para facilitar investimentos e recuperação de créditos, no estilo da recém-aprovada Lei de Falências. "O que conta é a política econômica e as expectativas de que ela continuará e os mercados estão dando crédito ao governo, à liderança do país", disse o secretário do Tesouro. Evitando usar a palavra "crise", Snow afirmou que está impressionado com a flexibilidade e capacidade de recuperação da economia brasileira. "A situação, não importa como a caracterizem, não tem efeitos importantes sobre os fundamentos da economia, não produz efeitos mais amplos", comentou. Ele disse ter sentido, em conversa com investidores privados, ontem, a mesma confiança na capacidade da economia de enfrentar as dificuldades no cenário político. No encontro com investidores, ontem em Brasília, os executivos não se mostraram preocupados com a crise, garantiu Snow. "Mostraram, na verdade, gratidão ao governo por ter posto em prática essa sólida política macroeconômica, que reduz os riscos sistêmicos", disse. Snow irá hoje ao Rio para participar da 4ª reunião do Grupo Brasil-Estados Unidos para o Crescimento, com a presença de Palocci, e de representantes de empresas e instituições financeiras. Após reunir-se com Palocci, de manhã, Snow falará sobre a cooperação Brasil-Estados Unidos e o estímulo ao crescimento econômico bilateral na Confederação Nacional do Comércio. Snow terá um almoço de trabalho com Palocci, do qual participarão convidados dos setores acadêmico e privado.