Título: CPI aprova convocação de Pizzolato e Dirceu e mira na origem de recursos
Autor: Henrique Gomes Batista
Fonte: Valor Econômico, 03/08/2005, Política, p. A6

A CPI dos Correios aprovou ontem as convocações do ex-ministro José Dirceu (PT-SP) e do ex-diretor de marketing do Banco do Brasil, Henrique Pizzolato, para depor, e decidiu focar seu trabalho na apuração da origem dos recursos que foram parar nas mãos de políticos e parlamentares. Para o relator da CPI, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), irregularidades cometidas em contratos de empresas públicas podem ter financiado o esquema de mensalão. Na quinta-feira a CPI deve discutir, também, o pedido de quebra de sigilo dos investimentos dos maiores fundos de pensão do país. A oposição alega que houve um direcionamento nos investimentos em prol de empresas ou atividades do governo, o que poderia gerar desvios para o suposto mensalão. O governo deverá tentar adiar ao máximo a aprovação deste requerimento. A aprovação da convocação de Pizzolato, por sua vez, pode acelerar a quebra dos sigilos dos fundos de pensão, já que ele era um dos conselheiros do Previ, maior fundo do país com recursos de R$ 70 bilhões. Ao explicar o novo foco, o relator disse que "há uma ampla possibilidade de que os recursos saíram de estatais, há uma série de irregularidades que estão sem explicação". Serraglio afirmou que está cada vez mais convencido de que as irregularidades nos contratos com as estatais devem ter relação com o envio de dinheiro das empresas de Marcos Valério a políticos. "Estamos começando a analisar os contratos e vemos uma série de situações em que ocorreram aditamentos, reajustes ou reequilíbrios de contratos que não se explicam", afirmou. Ele disse que a CPI ainda não vai divulgar esses casos. "Estamos começando a apurar esta linha, não posso ainda dizer em quantos contratos há problemas ou o tamanho do desvio", afirmou. Ele lembrou que em apenas um contrato onde se descobriu irregularidades - da Eletronorte com a DNA -, foram pagos irregularmente por meio de aditivos R$ 37 milhões. "Qual a relação dos contratos de publicidade dos Correios e da Eletronorte? Por quê todas estatais estão cancelando contratos com as empresas de Valério? Temos que responder este tipo de pergunta", afirmou. O relator não tem previsão de quando saíram as primeiras conclusões sobre os contratos. As duas audiências aprovadas ontem se enquadram na nova ótica do relator da CPI. Dirceu era, como ministro-chefe da Casa Civil, responsável pela distribuição de cargos no governo. Pizzolato sempre foi apontado como um dos homens do PT no banco, justamente na área de marketing, onde há a maior parte de denúncias de corrupção envolvendo as agências de publicidade de Marcos Valério - SMP&B Comunicação e DNA Propaganda. Os dois depoimentos não têm data para ocorrer. A convocação de Dirceu sempre foi polêmica e o governo conseguiu adiar sua análise ao máximo. Porém, devido às últimas denúncias do fim de semana - que envolveram a sua ex-mulher com os bancos BMG e Rural devido à influência de Valério - tornaram seu depoimento inevitável. O governo assimilou e não opôs resistência. Focar a CPI na origem dos recursos atende a dois objetivos do governo: manter a CPI na investigação inicial - as denúncias do esquema de corrupção nos Correios -, e enviar para a CPI do Mensalão, que até o momento não engrenou, a tarefa de desvendar os beneficiários dos saques milionários realizados nas empresas de Valério. Dividir entre duas frentes de investigação o mesmo esquema de corrupção - corruptor nos Correios e corrompidos no Mensalão - ajudaria a dividir a atenção da opinião pública e futuros acordos sobre o andamento das investigações com a oposição. A definição do novo plano de trabalho da CPI dos Correios deve começar a ser discutida na quinta-feira. "Não podemos perder nosso foco, estamos aqui para apurar se há corrupção nas estatais, não para analisar quem recebeu mensalão", afirmou o deputado Maurício Rands (PT-PE). A oposição tende a aceitar essa divisão. "Poderemos desta forma chegar aos corruptores, pela primeira vez em uma CPI", afirmou o deputado Eduardo Paes (PSDB-RJ).