Título: Soares acusa ex-ministro de encomendar e vazar dossiê apócrifo
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 03/08/2005, Política, p. A8
O ex-secretário nacional de Segurança Pública Luiz Eduardo Soares acusou ontem o ex-ministro José Dirceu de elaborar e vazar um dossiê apócrifo com supostas denúncias de corrupção. Soares prestou depoimento na CPI dos Bingos. O documento, segundo Soares, trazia informações "mentirosas" e "descabidas": "Saí do governo no pior momento da minha vida porque elaboraram um dossiê apócrifo, com acusações de todos os tipos". O ex-secretário explicou que foi feito um acordo com o PT e o governo que implicava na sua renúncia e uma investigação interna no partido para apurar os autores do dossiê. "Ficou acertado que o PT faria uma investigação, um esclarecimento público e a punição dos culpados. Eu saí e nada disto aconteceu. Um dossiê como este não se faz ou se vaza sem a anuência do comando do governo", avaliou. Soares afirmou ter certeza de que o ex-ministro José Dirceu e os ex-assessores da Casa Civil Waldomiro Diniz e Marcelo Sereno foram os responsáveis pela elaboração e vazamento do dossiê. Ele revelou que Waldomiro "era peça importante" na estrutura da Casa Civil. Soares afirmou também que Marcelo Sereno, ex-secretário de Comunicação do PT, completava a triangulação. Aos integrantes da CPI, Soares mostrou-se especialmente magoado com o ex-presidente nacional do PT José Genoino. Em seu depoimento, o ex-secretário disse que Genoino não mandou investigar o dossiê. Soares acusou a direção nacional do PT de ter "sacrificado" a eleição ao governo do Estado do Rio de Janeiro em 2002 para proteger Waldomiro Diniz, que está envolvido em denúncias de uma tentativa de intermediação, junto à Caixa Econômica Federal, para a renovação do contrato com a empresa GTech. "O comando do PT nacional atropelou o PT do Rio e, sem consideração, sacrificou as eleições no Rio em nome dos interesses nacionais. Era uma campanha predestinada à derrota", disse Soares. Luiz Eduardo foi candidato a vice-governador na chapa de Benedita da Silva em 2002. Ele teria sido alijado da campanha por ter se colocado contra a manutenção de Waldomiro Diniz à frente da Loterj, quando Benedita assumiu o governo em substituição a Anthony Garotinho, que saiu candidato à Presidência. Segundo Luiz Eduardo, por ordem do comando nacional do partido, Benedita se recusou a fazer uma auditoria nas contas de Garotinho. O ex-secretário informou que, durante a campanha de Benedita da Silva ao governo do Rio, foi procurado pelo empresário de jogos Sérgio Canozzi, "que não conhecia". Durante a conversa, disse que recebeu dele informações "detalhadas e sofisticadas" de como o governo do estado do Rio poderia drenar recursos públicos para campanhas eleitorais, que poderiam chegar de R$ 80 milhões a R$ 100 milhões, somente nos nove meses do governo de transição de Benedita, incluindo o uso da massa falida do Banco do Estado do Rio de Janeiro (Banerj). Soares salientou que "em nenhum momento" Sérgio Canozzi teria garantido a ele a existência de desvio de dinheiro público para campanhas tanto nas administrações de Garotinho e Benedita, "mas apenas como montar os esquemas de desvio de recursos públicos". Ele informou que não denunciou Canozzi "com medo de ser apenas um ardil para prejudicar as campanhas de Lula e Benedita". (Com agências noticiosas)