Título: Dólar cai para menor nível em 3 anos
Autor: Cristiane Perini Lucchesi
Fonte: Valor Econômico, 04/08/2005, Finanças, p. C1
Câmbio Moeda atinge R$ 2,311 com fluxo de recursos externos e depoimento de José Dirceu
O depoimento do deputado José Dirceu, considerado firme e seguro pelos participantes do mercado financeiro, afastou mais as possibilidades de impeachment do presidente Lula e fez com que os investidores reduzissem apostas contra o real. O mercado se surpreendeu positivamente com as entradas líquidas de US$ 2 bilhões no câmbio contratado em julho, número divulgado ontem pelo BC. O resultado foi a queda forte no dólar, de 1,32%, para R$ 2,3110, seu mais baixo nível desde 12 de abril de 2002. No ano, a queda é de 12,92% e no mês, de 2,90%. "As forças gravitacionais estão em ação sobre o dólar", comenta o economista-chefe do Bradesco, Octavio de Barros. A liquidez internacional está forte e a balança comercial tem demonstrado um desempenho "espetacular", afirma ele. Além disso, continua, 72% da meta de superávit fiscal primário (sem considerar juros) já foi cumprida até junho. "E o melhor: a inflação está convergindo para a meta, o que é um pré-anúncio do afrouxamento monetário", afirma. "Ninguém está disposto a ficar comprado em dólar quando há um forte fluxo de recursos externos ao país", completa Alexandre Vasarhelyi, chefe da mesa de câmbio do ING. Ao contrário -as posições dos investidores institucionais externos na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) são vendidas em dólar em cerca de US$ 7 bilhões, somando os vendidos no contrato de dólar futuro e no de cupom cambial (DDI), os juros em dólar no país. As entradas financeiras e comerciais surpreenderam o mercado especialmente na última semana de julho, quando o dólar teve uma puxada e foi ao pico de R$ 2,5140 no dia 26. Os US$ 2 bilhões de superávit no câmbio contratado em julho foram registrados a partir do dia 21. Até então, os números do Banco Central mostravam saldo positivo de não mais do que US$ 30 milhões. Os exportadores aproveitaram para vender dólar no momento de sua valorização. Desde o início do ano, os exportadores têm se mostrado estimulados a antecipar o fechamento de câmbio ao embarque físico das exportações. Visam reduzir ou anular as perdas com a desvalorização no dólar aplicando suas receitas nos altos juros em reais no Brasil. Em julho, não foi diferente: as exportações físicas foram de US$ 11,061 bilhões, mas o câmbio contratado para exportação chegou a US$ 11,274 bilhões. O superávit comercial no mês passado foi de US$ 5,01 bilhões, acima do esperado pelo mercado, que falava em números de US$ 3,8 bilhões a US$ 4,5 bilhões, mas o saldo no câmbio comercial contratado foi ainda maior, de US$ 5,6 bilhões. No ano até julho, segundo estudo do Departamento Econômico do Bradesco, o câmbio contratado para exportação superou em US$ 2,67 bilhões os embarques físicos de mercadorias para o exterior. Mas o superávit financeiro no câmbio contratado verificado em julho foi o que mais surpreendeu os analistas. "As saídas líquidas financeiras foram bem menores do que o esperado", afirma Alexandre Lintz, estrategista do BNP Paribas, em seu boletim diário. Só na Bolsa de Valores de São Paulo ingressaram US$ 1 bilhão. Do dia 21 até o final do mês, houve até ingresso de recursos no mercado de câmbio contratado financeiro, de US$ 152 milhões. "A decisão do Tesouro, de ficar fora do mercado, deve ter contribuído para a melhor performance na conta financeira." No dia 26, por causa da crise política, o Tesouro anunciou que pararia com suas compras de dólar no mercado à vista, que são registradas como saída financeira. O mercado acredita que falta pouco senão nada para o Tesouro atingir o total de compras a que se propôs neste ano, de US$ 9,5 bilhões. Com o arrefecimento da crise política, sem o Tesouro no mercado, com juros reais de 14% ao ano, investimento direto ingressando no país e crescimento no saldo comercial - o Bradesco reviu sua previsão para US$ 41,65 bilhão na segunda-feira e mantém "viés" de alta -, os especialistas não sabem até onde pode cair o dólar no curto prazo.