Título: Setor têxtil reduz ritmo de produção em SC
Autor: Vanessa Jurgenfeld e Sérgio Bueno
Fonte: Valor Econômico, 05/08/2005, Brasil, p. A4
Conjuntura Queda nas vendas obriga empresas a suspender turnos de trabalho aos sábados e domingos
A Buettner e a Karsten, duas grandes indústrias têxteis catarinenses do setor de cama, mesa e banho, estão reduzindo a produção por conta de queda nas vendas. A Buettner determinou o fim dos trabalhos aos sábados e domingos a partir de 1º de agosto, e a Karsten começou, há uma semana, a dar folgas nos fins de semana para cerca de 300 funcionários de algumas linhas da tecelagem e beneficiamento, setores que trabalhavam de forma ininterrupta. "O segundo semestre está ainda pior que o primeiro", diz o presidente da Buettner, João Henrique Marchewsky. Na última semana, 150 trabalhadores foram dispensados e a empresa acabou com o sistema 6 X 2, também chamado de rodízio têxtil (o funcionário trabalha seis dias e folga dois, não necessariamente aos fins de semana) a partir deste mês. Segundo o empresário, já se espera redução de produção de 20% no segundo semestre em relação a igual período de 2004, e cerca de 10% se comparada com a produção dos primeiros seis meses do ano. O mês de julho apresentou vendas tão fracas como as de maio e em junho, tanto no mercado interno quanto no mercado externo. "No externo, até existe procura, mas não com um bom preço para o fabricante", diz Marchewsky, que em julho registrou, pela primeira vez este ano, estoque considerável de mercadorias. Na sua opinião, o cenário ruim para o setor não deve sofrer alterações pelo menos até setembro. Ele não vê perspectivas de melhora na cotação do dólar para o exportador, tampouco uma diminuição na taxa de juros a ponto de incentivar o consumo no mercado doméstico. "Acho que este será um ano pior do que o ano passado", diz, acrescentando que a crise política também afeta negativamente os negócios. A Karsten não se pronunciou sobre o assunto. No Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Têxteis de Blumenau (Sintrafite), a informação é que a formação de estoque por conta da dificuldade de vendas levou às folgas aos fins de semana na Karsten - por enquanto em algumas divisões, e ainda sem uma previsão de quanto tempo a medida vigorará. No último balanço divulgado, a empresa comentou sobre a situação difícil do mercado e apresentou números inferiores. A receita operacional bruta consolidada no 2º trimestre foi de R$ 87,5 milhões, inferior à receita de R$ 89,6 milhões do 2º trimestre de 2004. O lucro líquido consolidado foi 33% menor -R$ 1,7 milhão, ante R$ 2,5 milhões no mesmo período do ano anterior. Embora ainda não tenha feito demissões nem alterado o seu sistema de produção, a indústria têxtil Buddemeyer, de São Bento do Sul (SC), diz que a situação não é diferente. O diretor-financeiro, Evandro Müller, comenta que o mercado está muito "difícil" e acha que existe um conjunto de fatores para isso - altos juros, queda de renda, falta de um bom inverno e ainda o fato de alguns exportadores estarem direcionando produtos para o mercado interno, já que o câmbio não está interessante. Em julho, houve faturamento 10% menor que em julho de 2004, e a previsão de crescimento de 30% na receita projetada para este ano não é mais esperada. No Rio Grande do Sul, o mês de julho aumentou as preocupações do setor calçadista em função do desempenho das exportações. Segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), os embarques no mês cresceram apenas 1% em receitas sobre o mesmo período de 2004, para US$ 186 milhões, apesar de os preços médios dos produtos exportados terem crescido 20% no ano. O resultado mensal, que revela queda acentuada nos volumes físicos vendidos ao exterior, também puxou para baixo o crescimento acumulado do faturamento no ano. Dos 10% registrados no semestre, o índice recuou para 8% nos sete meses, para US$ 1,1 bilhão, revela a Abicalçados. Segundo o diretor-executivo da entidade, Heitor Klein, o desempenho até aqui indica que, em vez da projeção inicial de US$ 2,2 bilhões, as exportações de 2005 deverão no máximo empatar com o US$ 1,8 bilhão registrado no ano passado. As principais razões, segundo ele, são a valorização do real, que retira a competitividade dos produtos brasileiros, e a concorrência dos calçados chineses no mercado internacional. Embora se considere "surpreso" com o crescimento de 15% nas vendas durante a última Francal, em julho, o gerente de marketing da fabricante gaúcha de calçados masculinos West Coast, Sérgio Baccaro, diz que a empresa reviu de 1,7 milhão para 1,6 milhão de pares a produção neste ano. Segundo ele, a revisão deve-se ao comportamento do mercado externo, onde a empresa consegue apenas manter os mesmos volumes de 2004. "Esperávamos conquistar novos mercados", afirma. A West Coast repassou aos preços dos produtos exportados apenas parte da desvalorização do dólar para não perder mercado. As exportações absorvem 30% da produção da empresa.