Título: As commodities e a mudança no perfil industrial
Autor: Sérgio Werlang
Fonte: Valor Econômico, 08/08/2005, Opinião, p. A9
As commodities são bens cuja produção é passível de ser feita em qualquer parte do mundo, de forma padronizada. Assim, pode-se considerar como uma commodity a maioria dos produtos básicos (ou quase) como o café em grão, o minério de ferro, a soja em grão, as carnes, o petróleo, o suco de laranja, o açúcar e a polpa de celulose, por exemplo. Há também bens que são diretamente produzidos a partir destes, com um mínimo de beneficiamento, como o farelo e o óleo de soja, o aço e os derivados de petróleo, apenas para citar alguns. A categoria das commodities está ligada intimamente às riquezas naturais de um país: a extensão cultivável, a produção de animais para abate, os minérios e o petróleo ali produzidos. Alguns países têm recursos naturais em maior abundância e são grandes exportadores de commodities. Exemplos são: Brasil, Austrália, Nova Zelândia, Chile, Canadá, Ucrânia, além dos países exportadores de petróleo. O preço do petróleo tem subido desde 1999, e o preço das outras commodities também desde 2002. O comportamento de longo prazo do preço das commodities não petróleo vinha numa tendência cíclica, mas cadente. O que acontecia era o seguinte: para produzir em larga escala uma commodity precisa-se de algum investimento (por exemplo, o aumento da área plantada, a pesquisa para extrair o minério etc.). Assim, dois fatores influenciavam o preço das commodities. Primeiro, se havia falta de alguma delas, então seu preço subia, o que incentivava investimentos, que por sua vez geravam no futuro a queda dos preços, dependendo do seu ciclo de maturação. Além disso, do lado da demanda, se o preço subia, os consumidores procuravam substitutos. A combinação destas duas forças dá um caráter cíclico ao preço das commodities. Em segundo, há uma tendência de longo prazo declinante. Isto ocorre porque as tecnologias de produção ficam cada vez melhores: maior produtividade agrícola, novas técnicas de extração e processos mais eficientes de uso das commodities. A alteração recente deste padrão de comportamento dos preços das commodities tem três razões fundamentais. Em primeiro lugar, o dólar tem-se desvalorizado frente às outras moedas desde 2002. Como o preço das commodities é medido em dólares, mas todos os países demandam-nas, naturalmente este tem que subir quando o dólar perde valor. Em segundo lugar, algumas commodities podem ser estocadas com facilidade por muito tempo: petróleo, ouro e café, por exemplo. Ora, quando a taxa de juros cai, o custo para manter o estoque de qualquer produto cai. Dessa forma, demandam-se mais commodities que serão armazenadas. Portanto, menores taxas de juros a longo prazo tendem a exercer pressão de alta sobre os preços das commodities. E a taxa de juros no mundo tem estado baixa, desde a crise da Rússia, em 1998. Mas há um terceiro fator novo, e de enorme importância, que poderá ter efeitos muito duradouros no preço das commodities: a ascensão do poder aquisitivo na China e, mais recentemente, na Índia. A população destes dois países é de 2,4 bilhões, que representam 38,4% da população mundial. Entre 1990 e 2004, a renda per capita subiu de US$ 1.330 para US$ 5.642 na China e de US$ 1.382 para US$ 3.029 na Índia, ajustando para o poder de compra (dados do FMI - enfatizo que são ajustados para o poder de compra). Ainda está longe de padrões do sudeste da Ásia (Indonésia, Coréia, Malásia, Filipinas e Cingapura) de US$ 13.342 per capita em média, ou mesmo de Brasil, México e Chile, que têm renda per capita entre US$ 8.400 e US$ 10.900. Mas o aumento do poder aquisitivo de metade da população mundial tem, obviamente, exercido uma enorme pressão nos preços das commodities. Ocorre que há poucos países que ainda têm recursos naturais ociosos, de modo que a oferta mundial de commodities não tem crescido no mesmo ritmo da procura. Dessa maneira, observa-se que, enquanto estes dois gigantes, China e Índia, não atingirem níveis razoáveis de renda per capita, haverá ainda uma tendência a que os preços das commodities não caiam com a rapidez dos ciclos anteriores (pode até mesmo ser que o comportamento do preço de algumas commodities venha a ser parecido com o padrão de elevação que nota-se agora no petróleo, uma vez que pode haver crescimento da oferta insuficiente para atender à toda a procura adicional).
Se mundo continuar em expansão, as commodities devem ficar mais caras e manter o câmbio apreciado por um período prolongado
Ou seja, se o mundo continuar a expansão que tem sido observada recentemente (muito impulsionada pela China), é de esperar-se que as commodities fiquem mais caras por um período mais prolongado. Isto tem uma importante conseqüência para o Brasil. Se um país é grande produtor e exportador de commodities, então sua taxa de câmbio vai apreciar mais do que os dos países não produtores. A razão é simples: seu saldo comercial será maior. Por exemplo, mesmo com câmbio de R$ 2,40 (que é um pouco mais elevado do que está hoje) fixo em termos reais, o superávit comercial que estimamos (no Banco Itaú) para o Brasil é acima de 40 bilhões de dólares este ano. Nosso país é um dos maiores exportadores de commodities. Quase 60% da pauta de exportações brasileiras é formada pelas mesmas. Mais ainda, em termos de aproveitamento adicional de recursos naturais, ainda o Brasil apresenta um grande potencial. Segue-se que o país conviverá com uma taxa de câmbio mais valorizada do que no passado. É importante ressaltar que este período muito provavelmente não será curto, devido ao comportamento esperado para o preço das commodities. A conclusão a que se chega é que certos setores industriais, que eram tradicionalmente exportadores às taxas de câmbio anteriores, terão que adaptar-se. O perfil industrial brasileiro terá que mudar um pouco para encaixar-se na nova realidade da situação mundial.