Título: Presidente amplia contatos e chama empresários
Autor: Raymundo Costa e Cristiano Romero
Fonte: Valor Econômico, 08/08/2005, Especial, p. A10
Depois de passar as últimas semanas atribuindo a crise política a uma conspiração das elites, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva incluiu empresários no rol dos contatos com a sociedade que o Gabinete de Crise definiu para o papel por ele exercido. Reuniu-se, na sexta-feira, por mais de seis horas, com dirigentes de confederações nacionais e empresários e executivos do setor produtivo. Nos encontros, o Palácio do Planalto tinha um recado claro a transmitir aos interlocutores: a crise está longe de afetar o desenvolvimento econômico e o Ministério da Fazenda e o Banco Central continuarão a fazer o "dever de casa". Os encontros foram divididos em duas reuniões, uma pela manhã e outra à tarde. Na primeira, Lula recebeu os presidentes das confederações nacionais da indústria, comércio, agricultura, instituições financeiras e transporte, além do coordenador da ação empresarial, Jorge Gerdau. A reunião foi solicitada pelos empresários para apresentar ao presidente uma "agenda mínima" de projetos que gostariam de ver votados pelo Congresso. À tarde, quem falou foi o governo. O ministro da Fazenda, Antonio Palocci, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e o próprio presidente tentaram acalmar os 22 empresários que foram ao Planalto e dar mostras de solidez na economia. A reunião foi feita a convite de Lula. "O presidente não falou das elites na reunião como tem feito nos últimos dias. Ele estava muito sereno, não fez demonstrações ou arroubos", disse o presidente da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Antônio de Oliveira Santos. "Ao que me parece, o presidente chegou à conclusão de que a crise é e está no Congresso Nacional", concluiu. O presidente da Confederação Nacional das Indústrias, Armando Monteiro, encontrou uma saída para não criticar a postura do presidente nos últimos discursos. "O presidente não disse sobre quais elites ele estava se referindo quando as criticou", disse. E completou: "A nossa conspiração é pelo bem do país. Não é uma defesa do governo, mas um entendimento de que são necessárias medidas para o país fazer uma travessia tranqüila pela crise", explicou. A reunião para falar de política econômica teve caráter político. As lideranças do setor produtivo convidadas a participar do encontro foram escolhidas pelo presidente. E o encontro foi organizado pelo ministro da Secretaria das Relações Institucionais, Jaques Wagner, também responsável pela secretaria do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, o canal de diálogo do governo com os empresários. Palocci e Meirelles fizeram longas exposições. O presidente da CNI reivindicou a necessidade "de se assegurar condições mínimas para que o ambiente econômico não se deteriore". Os empresários pediram mais agilidade do governo federal em liberar projetos retidos na Casa Civil e pediram mais empenho dos parlamentares governistas para tirar o Congresso do engessamento das atividades das CPIs que investigam as denúncias de mensalão. "Não é possível que o recesso se prolongue. O Congresso pode trabalhar mais do que vem trabalhando", disse Monteiro.