Título: 'Gabinete de crise' tenta salvar governo Lula
Autor: Raymundo Costa e Cristiano Romero
Fonte: Valor Econômico, 08/08/2005, Especial, p. A10
Crise Novo núcleo do poder articula diálogo com oposição
Num momento crítico das investigações em curso no Congresso Nacional, o governo deflagra esta semana uma operação para convencer seus aliados e a oposição a votar uma agenda mínima de projetos. Na lista de prioridades, está a votação da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), que deveria ter ocorrido antes do recesso de julho, e a MP do Bem, com medidas de desoneração do setor produtivo. Por enquanto, a idéia é votar apenas projetos de lei e medidas provisórias, matérias que exigem maioria simples. Após dois meses de paralisia provocada pela crise política, o Palácio do Planalto procura sair, com dificuldades, do isolamento. Um gabinete de crise, integrado por um novo núcleo do poder, funciona em Brasília, centralizando decisões estratégicas sobre o funcionamento do governo e a articulação no parlamento. Nesse modelo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem cuidando da "agenda da rua", que num dia o leva a se reunir com sindicalistas e no outro com agricultores do sertão do Piauí. Em conversas com seus assessores próximos, Lula reconheceu que, nos discursos que tem feito, errou no tom, dificultando mais que ajudando o diálogo com a oposição. Prometeu mudar, mas já na sexta-feira disse a empresários que a crise está no Congresso e não no governo. Nessa rearticulação política, o governo caminha para controlar e reduzir os danos das CPIs por meio de acordos com a oposição. Um almoço no Palácio do Planalto, na quarta-feira, reuniu pela primeira vez o núcleo do "gabinete de crise". Em volta da mesa sentaram-se os ministros Márcio Thomaz Bastos (Justiça), Dilma Rousseff (Casa Civil), Antonio Palocci (Fazenda) e Jaques Wagner (Relações Institucionais). Esses almoços, sem a presença do presidente, eram sistemáticos quando José Dirceu estava na Casa Civil e reunia ainda os ex-ministros Luiz Gushiken e Aldo Rebelo. É a primeira vez que Thomaz Bastos participa. O ministro é um dos principais gestores da crise. No Congresso, são peças-chaves o senador Delcídio Amaral (PT-MS), que dita o ritmo e articula com os partidos políticos os critérios da investigação na CPI dos Correios, e o deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), líder do governo na Câmara, responsável pelos contatos com os deputados envolvidos nas denúncias e pela tarefa de negociar com os partidos aliados e com a oposição a retomada das votações. A partir desta semana, Chinaglia contará com o reforço dos deputados e ex-ministros Aldo Rebelo (PCdoB-SP) e Eduardo Campos (PSB-PE). No PT, as ramificações do gabinete são o presidente Tarso Genro (RS) e o secretário-geral Ricardo Berzoini (SP). Há operadores nas CPIs. A senadora Ideli Salvatti (PT-SC) mantém contato permanente com o coordenador político Jaques Wagner. O deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP) acompanha os depoimentos e transmite "dicas" em tempo real à bancada do PT na CPI. Todos, ministros, dirigentes partidários e líderes no Congresso falam permanentemente, várias vezes ao longo do dia. Uma diferença fundamental é notada, em relação à coordenação política anterior do governo, por integrantes do grupo: agora, há mais unidade. Mesmo em relação a questões sensíveis, como a punição dos petistas envolvidos com o "valerioduto". Há consenso de que eles deveriam renunciar, os que têm mandato, e os demais, se desligar do partido - é isso o que Tarso Genro quer dizer ao anunciar que não dará legenda a quem renunciar. O ex-ministro também votou pelo afastamento de Delúbio Soares na reunião da Executiva. Com os contatos freqüentes e a organização das informações, os integrantes do gabinete tentam, pelo menos, não ser surpreendidos pela velocidade dos acontecimentos. Quando o deputado Roberto Jefferson associou José Dirceu à Portugal Telecom, no Conselho de Ética da Câmara, o ministro Jaques Wagner imediatamente acionou o assessor para Assuntos Internacional da Presidência, Marco Aurélio Garcia, para obter informações. No dia seguinte, recebeu o chanceler Celso Amorim para uma conversa no Palácio do Planalto. Os desdobramentos dessa conversa puderam ser vistos em Lisboa, onde o ex-ministro de Obras Públicas e Comunicação de Portugal, Antônio Mexia, visitou a embaixada brasileira para dizer que recebera Marcos Valério Fernandes de Souza como empresário e não na condição de emissário do presidente Lula. O chanceler e o embaixador Paes de Andrade conversaram ao telefone pelo menos três vezes, ao longo da quinta-feira. Jaques Wagner também esteve no centro da operação que, na sexta-feira, levou empresários ao Palácio do Planalto: a idéia é pressionar o Congresso a retomar as votações, não como uma iniciativa do Executivo, mas por um movimento nascido na sociedade. Está sendo avaliada a possibilidade de uma reunião também com trabalhadores. Uma tarefa bem mais fácil para Jaques Wagner que duas outras atribuídas a ele: tentar convencer os deputados acusados a renunciar e negociar uma saída para a crise sem chancelar oficialmente qualquer acordo. É uma ordem direta do presidente Lula. Na noite de quinta-feira, o presidente jantou na Granja do Torto com Aldo Rebelo e Eduardo Campos. Na segunda parte do encontro, o ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes, juntou-se ao grupo, a pedido de Lula. Na conversa, o presidente deu orientações a seus articuladores políticos. Aldo e Campos receberam de Lula a missão de negociar com a oposição e com os partidos da base aliada, inclusive, com os parlamentares do chamado baixo clero. Quando pediu aos dois que deixassem o ministério e voltassem para o Legislativo, o presidente deu a eles a tarefa não de defender o PT das acusações de corrupção, mas, sim, de ajudar o governo num momento em que perdeu a referência no Congresso. Há pelo menos dois "testes" para medir a eficiência do gabinete de crise, já esta semana: amanhã, Chinaglia tem duas reuniões previstas com os líderes aliados ou por quem eles indicarem (há dúvidas se os líderes Sandro Mabel (PL) e José Janene (PP), acusados de se beneficiar do "valerioduto", apareçam): de manhã, para discutir a reforma política; à tarde, para tentar acertar a retomada das votações. Outro teste é a eleição do novo líder do PMDB na Câmara, em substituição a José Borba (PR), também abatido por um saque no Banco Rural. O ex-governador Anthony Garotinho vai tentar eleger alguém do grupo oposicionista do partido.