Título: O custo da proteção
Autor: Angelo Pavini e Luciana Monteiro
Fonte: Valor Econômico, 08/08/2005, EU &, p. D1
Investidor de alta renda e empresas buscam blindagem no dólar, sacrificando rentabilidade do juro real
A turbulência política finalmente mexeu com os investidores nas últimas duas semanas, aumentando a procura de dólar para proteção. Os fundos cambiais, antes à míngua, voltaram a captar. Ao mesmo tempo, cresceu a procura nos private banks por informações sobre a oportunidade de compra de moeda americana. Muitos investidores compraram dólar mesmo contra a recomendação dos especialistas, que não vêem motivo para aposta mesmo no médio prazo. O resultado dessas compras foi um prejuízo considerável na semana passada, quando o dólar voltou dos R$ 2,462 da semana anterior para R$ 2,31 - uma perda de 6,17% em cinco dias. Parte dessa procura veio da preocupação com as declarações do presidente Lula contra as "elites" e da decisão da Merrill Lynch de reduzir a recomendação para investimentos no Brasil. "Depois de ouvir o Lula, alguns investidores me procuraram para mandar dinheiro para fora pois, já que eles são da elite, não querem ficar aqui para pagar a conta", diz um administrador independente que pediu para não ser identificado. Na sexta, a moeda americana rompeu a sequência de oito quedas e fechou em alta de 0,21%, a R$ 2,308. Mas, segundo operadores, a valorização ocorreu devido ao temor de novas denúncias no fim de semana e da alta do petróleo. Um parte dos grandes investidores buscou refúgio na moeda americana via fundos de investimento. Em julho, segundo dados da Associação Nacional dos Bancos de Investimentos (Anbid), o ingresso de recursos na categoria foi o maior dos últimos 19 meses, de R$ 971,12 milhões. De acordo com a entidade, grande parte dos aportes ocorreu em fundos exclusivos. Os números do site Fortuna confirmam a entrada de recursos em carteiras cambiais de grandes investidores em julho. Dos 106 fundos listados na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), 84 divulgam suas informações ao Fortuna. Nesses, a captação somou R$ 171 milhões. Isso quer dizer que R$ 800 milhões ingressaram em algumas dessas 22 carteiras que não informam o mercado seus dados, normalmente fundos de empresas ou de grandes clientes. A procura pelo dólar de parte dos aplicadores locais contraria o movimento dos estrangeiros e mesmo da maioria dos grandes investidores brasileiros, que preferem continuar apostando no real e nos generosos juros locais. O motivo aparece no gráfico do dólar comercial contra o CDI. Só neste ano, até sexta-feira, quem adotou o dólar como porto seguro deixou de ganhar 27,49% em relação a quem aplicou em CDI. Na Bovespa, os estrangeiros aumentaram as compras de ações em R$ 2,5 bilhões em julho e mais R$ 102 milhões só nos três primeiros dias do mês. Enquanto as pessoas físicas e empresas compram dólar achando a moeda barata ou buscando proteção, bancos e grandes investidores locais e estrangeiros estão vendendo, diz Luiz Fernando Lopes, sócio do Banco Pátria. Ele lembra que é falsa a idéia de que a crise política não afetou o Brasil, uma vez que outros emergentes estão com desempenho melhor. Mas, com a grande liquidez internacional e o cenário externo relativamente tranqüilo, seria preciso uma crise política muito mais séria para afastar os estrangeiros. "E quem decide para onde vai o Brasil é o mercado externo." A procura por dólar aumentou na segunda-feira, dia 25, quando a moeda chegou perto dos R$ 2,50, diz Marco Navarro, chefe de Investimentos do Unibanco Private Bank. "Nós avisamos que a tendência era de valorização do real, mas não adiantou." Segundo ele, os investidores que aplicaram em dólar se arrependeram diante da queda da moeda. "Agora não recomendamos vender pois já houve a perda e a aplicação fica como um hedge caso o cenário político se deteriore muito", diz. Ele lembra que, no segundo semestre, haverá a tão esperada queda dos juros e, se a crise política piorar, a moeda pode subir. "Mas mesmo assim não aconselhamos comprar dólar." As indicações são para aplicações de renda fixa ligadas ao juro DI e uma parte em prefixados. E monitorar o mercado para, caso a crise passe, entrar em bolsa. "Estimamos um potencial para o Ibovespa chegar aos 28.000 pontos até dezembro." Pelos fatores econômicos, não há motivo para comprar dólar, diz Mauro Rached Rached, chefe de assessoria financeira do private bank do BNP Paribas no Brasil. Os déficits fiscal e externo dos EUA e o fortalecimento da moeda chinesa apontam para um dólar mais fraco no futuro. Mas, no curto prazo, a moeda pode se recuperar pela alta dos juros americanos e a queda da Selic no Brasil. Isso pode incentivar investidores a ter uma parte maior das aplicações em dólar. Mesmo assim, não seria suficiente para justificar o investimento. "Numa conta simples, o dólar a R$ 2,31 teria de subir para R$ 2,72 para compensar o juro de 12 meses do mercado futuro, de 18,2%", diz. Para Rached, se a situação se deteriorar a ponto de comprometer a condução da política macroeconômica - seja pela renúncia do presidente ou por aumentar a preferência por um candidato contrário à atual política nas próximas eleições - haveria contaminação geral dos mercados com forte alta do dólar e juros e queda da bolsa. O cenário para o private do BNP não é esse, mas caso isso venha a ocorrer, o processo seria gradual e haveria tempo para comprar dólar ainda com preços razoáveis. O BNP está recomendando aos clientes aplicações de proteção, concentrados em renda fixa pós-fixada e com uma parte em prefixados. Para os que entraram em dólar, a recomendação é manter as aplicações. "São em geral empresas e pessoas com compromissos na moeda", diz. O BNP também recomenda ações, com destaque para Petrobras e Vale. Para o consultor Milton Wagner, da Wagner Investimentos, o dólar não tem muito espaço para subir. Com base em um estudo que leva em conta as concentrações das aplicações dos investidores nos diversos mercados de acordo com seu perfil - curto prazo, longo e especuladores -, ele acha que a moeda não deve ir muito além dos R$ 2,35, com a chance de cair até R$ 2,15 caso a situação geral melhore. Pesquisa semanal feita pelo consultor com cerca de 80 instituições na semana passada mostra que a maioria (54%) acha que o dólar tende a cair. Hideaki Iha, da Corretora Souza Barros diz que uma das evidências de que o dólar deve se manter em queda é que o Banco do Brasil, que em geral compra dólares em nome do Tesouro, tem operado principalmente na venda. Isso leva os outros bancos a acreditar que o Tesouro continuará ausente, sem comprar dólares durante a crise política. E a conclusão que se chega é que, se o Tesouro não quer dólares, não há comprador de peso que sustente a cotação. Relatório da consultoria GRC Visão divulgado na sexta-feira afirma que o cenário de queda da moeda americana se fortaleceu e o dólar pode romper a barreira de R$ 2,30 e chegar a R$ 2,27. Para a instituição, se a moeda cair mais, ela poderá chegar a R$ 2,22 e, em seguida, buscar os R$ 2,00. Luciano Tavares, gestor da Nest Investimentos, lembra que como a participação de títulos públicos atrelados ao dólar caiu no estoque da dívida, qualquer movimentação dos investidores causa um impacto maior no mercado à vista do que ocorria nos anos anteriores. A participação caiu de 24,58% da dívida total de R$ 622,79 bilhões em agosto de 2002 para 3,55% dos R$ 905,51 bilhões em junho deste ano.