Título: Na reta final, PSDB entre Serra e Alckmin
Autor: Raymundo Costa
Fonte: Valor Econômico, 09/08/2005, Política, p. A6

O giro eleitoral do presidente Lula da Silva tem sido muito criticado pela oposição, que o acusa de jogar mais lenha na fogueira da crise ao antecipar o debate sucessório. O fato é que Lula não dispõe de muitas saídas. Precisa ocupar espaço na mídia, mostrar que não está morto politicamente e manter o apoio das classes C, D e E, a fim de levar os adversários a pensar duas vezes, antes de pedir seu afastamento do cargo. Além disso, Lula não está sozinho. A oposição e partidos aliados do presidente também começam a ajustar seu cronograma sucessório ao calendário da crise. O PSDB talvez seja o melhor exemplo: os tucanos já avaliam a possibilidade de concentrar no governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e no prefeito da capital, José Serra, o programa e as inserções comerciais de TV do partido marcados para novembro. No PMDB, os próximos 50 dias serão decisivos: se encerra no dia 30 de setembro o prazo de filiação partidária para quem vai disputar a cadeira de Lula em 1º de outubro de 2006. Predomina hoje na sigla a avaliação de que a próxima eleição será a oportunidade há muito aguardada pelo partido, pois se considera muito difícil que o eleitorado desiludido com Lula faça opção de voto por PSDB ou PFL. O difícil é acertar o nome. O ex-governador Anthony Garotinho (RJ) tem potencial eleitoral, está em campanha pelo país, mas não é digerido pelos governadores e pela cúpula governista. A candidatura do governador do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto, é vista como piada. Resta a opção do presidente do Supremo Tribunal Federal, Nelson Jobim, uma incógnita eleitoral, mas um nome que daria um ar de respeitabilidade ao qual os pemedebistas se desabituaram faz tempo. Originalmente, o PSDB pensava numa distribuição igualitária do programa de 20 minutos, no dia 24, e de 80 inserções de 30 segundos a serem exibidas ao longo de oito dias de novembro. O governador de Minas Gerais, Aécio Neves, teria exposição idêntica à dos outros dois, a exemplo do programa e das inserções levadas ao ar no primeiro semestre deste ano. O fato é que Aécio Neves perdeu terreno na disputa, pode perder uma fatia do espaço de rádio e televisão partidário, em novembro, e já é visto por muitos como carta fora do baralho do PSDB.

Aécio perde espaço e dá prioridade à reeleição

Os tucanos levam a discussão cheios de dedos. Querem evitar, em 2006, a divisão de 2002, que ajudou a minar ainda mais as bases nas quais se assentava a candidatura Serra. Há um clima de intriga no ar, mas nada parecido com o que se passou na eleição passada: o PSDB de Minas suspeita do paulista; este, por seu turno, tem um candidato natural, Alckmin, outro - Serra - que ameaça atropelar na reta final, e um terceiro à espreita: Fernando Henrique Cardoso. Para boa parte da cúpula tucana, o mais seguro e tranqüilo para Aécio Neves agora é se concentrar na reeleição. O governador mineiro tem dito que só não quer é ser deixado à margem das discussões, mas ensaia conversas que deixam os tucanos intrigados: nas últimas semanas, conversou pelo menos duas vezes com Ciro Gomes (Integração Nacional), um ministro incomodado no governo, recém-filiado ao PSB, mas intragável para o PSDB paulista. O ex-presidente FHC insiste que não é candidato a candidato, mas suas intervenções cada vez mais duras, na crise, levam os próprios tucanos a crer que ele está se posicionando. Suas chances estariam no entanto limitadas à hipótese - tida como remota - de o governo Lula terminar em caos. FHC seria chamado como uma espécie de "salvador da pátria". Alckmin o tem como uma solução para um eventual impasse dos tucanos em torno do candidato ao governo estadual. Atualmente, o nome do vereador José Aníbal é o que reúne maior densidade partidária. O ex-ministro da Educação Paulo Renato de Souza também é pré-candidato, mas não tem o mesmo trânsito de Aníbal e de outros tucanos na maquina. A saída seria convocar Fernando Henrique Cardoso. Restam Serra e Alckmin. Segundo os tucanos, concentrar o programa e as inserções de novembro nos dois nomes é apenas uma questão de pragmatismo: são os dois que hoje reúnem mais viabilidade eleitoral. Primeiro partido a pedir horário eleitoral para 2006, o PSDB já acertou programas e inserções comerciais para três dias em abril e outros cinco em junho, época da convenção, em que o indicado do partido, salvo acidentes de percurso, já estará escolhido.