Título: PF concentra investigações no Banco Rural
Autor: Sergio Leo e Thiago Vitale Jayme
Fonte: Valor Econômico, 23/08/2005, Política, p. A8

Crise Demora em autorizações do Supremo retarda devassa contábil pretendida pelos policiais federais

Investigar o envolvimento do Banco Rural é a prioridade do momento da Polícia Federal dentro dos inquéritos sobre o pagamento de mensalão a parlamentares. A devassa da contabilidade da instituição financeira, com uma auditoria completa na contabilidade, faz parte de pedido feito pelos agentes ao Supremo Tribunal Federal (STF) há dez dias. Os policiais esperam somente a autorização do ministro relator do caso, Joaquim Barbosa, para colocar o Instituto Nacional de Criminalística da PF para vasculhar os dados do banco e confrontá-los com a versão do empresário Marcos Valério de Souza, sobre a contratação de empréstimos no banco para repassar ao PT. No despacho, protocolado no STF no dia 12 de agosto e à espera de uma resposta de Joaquim Barbosa, há pedido semelhante em relação ao BMG. Mas o objetivo primeiro da PF é tratar do caso Rural. E o motivo recai no passado do banco, presente em investigações sobre lavagem de dinheiro. A instituição financeira foi citada em esquemas de remessa ilegal de dinheiro na CPI do PC (Paulo César Farias, já falecido, tesoureiro da campanha presidencial de Fernando Collor), quando da abertura do processo de impeachment contra o então presidente da República, Fernando Collor, em 1993. Há a desconfiança de que o Rural pode não ser apenas uma ferramenta do esquema de corrupção. O banco poderia ser um dos agentes de toda a operação. O delegado Luís Flávio Zampronha, responsável pelo inquérito sobre as denúncias de corrupção contra parlamentares e ex-integrantes do governo, assina o despacho já levado à mesa de Joaquim Barbosa há quase duas semanas. Zampronha pede mais 30 dias, pelo menos, para prosseguir com as diligências. Desde a chegada do caso ao Supremo, no dia 26 de julho, os policiais só tiveram 15 dias para investigar. Terminado o prazo, eles enviaram relatório sobre os procedimentos realizados e pediram mais 30 dias. Aguardam a determinação de Barbosa. Desde o dia 12, a participação dos policiais se limita a fazer diligências requeridas pelos parlamentares das CPIs dos Correios e do Mensalão. Os policiais aguardam também decisão do Supremo sobre pedidos para ouvir os parlamentares apontados como beneficiários finais do dinheiro sacado nas contas de Marcos Valério. A idéia é ouvir pelo menos 31 deputados citados de alguma forma como recebedores, beneficiários ou mediadores do esquema do mensalão. O depoimento desses parlamentares poderia dar um caminho mais rápido para se chegar à origem do dinheiro da operação. Enquanto não obtém a autorização em relação aos bancos Rural e BMG e ao interrogatório de políticos, a polícia tem retardado seu trabalho de investigação. Mas o Supremo não tem prazo para decidir. Os investigadores querem fazer uma perícia contábil nas contas de Marcos Valério no Rural desde 1998, para verificar se há inconsistências entre os valores de depósitos e retiradas. A perícia quer buscar também as explicações sobre o envolvimento do Banco Rural como "facilitador" do sistema de remessas e pagamentos ilegais. Assim como os registros de CPIs anteriores mostram outras participações do Rural em esquemas semelhantes, os arquivos de quebra de sigilo já autorizados pela Justiça desmentem a afirmação do publicitário Duda Mendonça, de que foi a relação com o PT e com o publicitário Marcos Valério que o fez abrir uma conta no exterior para depositar dinheiro de caixa 2, não contabilizado regularmente. No pedido que se encontra no Supremo, é considerado "imperioso" o rompimento do sigilo bancário e bloqueio da movimentação relativos à conta da empresa Dusseldorf, de Duda Mendonça e sua sócia Zilmar Fernandes, no Bank Boston de Miami. Os registros da CPI do Banestado mostram que Duda e Zilmar mantinham uma conta no exterior (offshore) chamada Ágata, no MTB Bank, nas Ilhas Virgens, que somou quase US$ 1,63 milhão, entre 1997 e 2000. Documentos levantados pela comissão parlamentar e pela PF dão conta de outras duas contas no exterior além da Ágata. Ambas no Bank Boston. Uma de titularidade de Duda e outra de Zilmar. No despacho levado ao Supremo, delegados pedem a quebra do sigilo dessas três contas e os extratos a partir de janeiro de 1998. Os policiais pedem também a quebra de sigilo de outras cinco contas bancárias no exterior. Duas do BAC Flórida Bank, uma no Israel Discount Bank de Nova York, outra do Banco Rural nos Estados Unidos e, por fim, a Trade Link Bank, nas Ilhas Cayman, tida pelos integrantes da CPI dos Correios como um braço do Rural no exterior. No despacho no Supremo, os delegados pedem os extratos de todas essas contas desde 1998 e seus saldos atuais. Querem também saber os nomes dos titulares dessas contas. Acredita, assim, chegar à origem do dinheiro financiador do mensalão.