Título: Pólo do Maranhão naufraga em meio a disputas políticas no Estado
Autor: Raquel Balarin e Ivo Ribeiro
Fonte: Valor Econômico, 29/08/2005, Empresas &, p. B1
Siderurgia Valorização do real e queda dos preços do aço também reduzem interesse da Baosteel
Os esforços do governo para aprovar a Medida Provisória do Bem conseguiram reduzir a pouco menos da metade os custos fiscais de instalação de uma siderúrgica no Maranhão (de US$ 400 milhões para US$ 192 milhões), mas não foram suficientes para que o Pólo Siderúrgico do Estado saísse do papel. Depois da opção da coreana Posco pela Índia, agora está naufragando o projeto da chinesa Baosteel com a européia Arcelor. Em ambas as usinas, a Vale do Rio Doce seria sócia minoritária. Previsto para abrigar três usinas, o pólo deveria estar pronto até 2012. Consumiria investimentos de US$ 11 bilhões e teria capacidade para 22,5 milhões de toneladas de aço. Desenhada para 4 milhões de toneladas (primeira fase), a usina da Vale com a Baosteel tem um custo estimado de US$ 2,4 bilhões. O menor interesse em levar adiante o projeto no curto prazo deve-se a um conjunto de fatores, entre eles a valorização do real, problemas ambientais e sociais relacionadas ao terreno onde seria instalada a siderúrgica e uma disputa política entre a família Sarney e seu desafeto, o governador José Reinaldo Tavares (PTB). O governador acusa os Sarney de ter usado sua força política para tentar impedir a transferência do terreno, na Ilha de São Luís, da União para o Estado. E diz que a Vale não tem cumprido compromissos, como a instalação de medidores de qualidade do ar, ao mesmo tempo em que patrocina o "Vale Festejar", uma festa de São João fora de época idealizada pela senadora Roseana Sarney (PFL/MA), que deve sair candidata ao governo do Estado na próxima eleição. "Não entendo por que a Vale se meteu em política aqui no Maranhão", diz José Reinaldo, ressaltando que a empresa já havia tido problemas políticos no Pará. Para o governador, há deliberadamente um movimento para atrasar o projeto. "Não há uma operação contra o pólo e sim contra o início da instalação neste governo", explicou. A Vale preferiu não fazer comentários sobre as questões políticas. "A empresa jamais vai adiantar ou atrasar um projeto por causa dessas questões", afirma José Carlos Martins, diretor executivo de ferrosos da Vale. Um dos principais entraves para a instalação da siderúrgica é o terreno designado para o Pólo Siderúrgico, que era de propriedade da União. O governo do Maranhão demorou dois anos para conseguir a transferência da propriedade para o Estado, que irá cedê-lo. Mas é ainda preciso mudar o zoneamento, de área rural para industrial. Audiências públicas estão em andamento e a expectativa do governador é de que até a segunda semana de setembro a alteração esteja aprovada. Mas isso é ainda só o começo. Há uma forte resistência de ambientalistas, que acreditam que uma usina poluiria a ilha e elevaria a temperatura da região. Um problema ainda mais complicado é a remoção das cerca de 5 mil famílias da região - 65% delas sem saneamento básico. Fontes do governo afirmam que a Vale e a Baosteel haviam se comprometido inicialmente a arcar com os custos da remoção - estimados em US$ 50 milhões para as três siderúrgicas e US$ 18 milhões, no caso de apenas uma sair - mas, depois, recuaram. E o Maranhão não tem dinheiro para fazer a remoção. "O governo prometeu entregar o solo desimpedido e não resolveu essas questões", rebate Martins. Segundo ele, não é possível fazer investimentos com essas pendências e tampouco pedir que a Baosteel arque com esses custos. "Em conversas com os chineses, eles nos chamaram a atenção para o fato de que o acordo para o projeto foi assinado em 2001 e ainda não começou a ser tocado. Nesse período, eles aprovaram um projeto na China e construíram uma usina que já está em operação", diz Martins. Ele nega que a Baosteel tenha perdido o interesse na obra, já que o consumo interno na China continua a crescer, mas admite que "a janela de oportunidade não fica aberta para sempre". "Há um ano e meio a decisão seria mais fácil. Agora estamos em um momento de acomodação do mercado." A mudança no mercado já levou a Arcelor a se afastar do projeto, apurou o Valor. O grupo irá se dedicar à consolidação de seus ativos no país e à expansão da CST. Juntas, Vale, Arcelor e Baosteel já investiram US$ 16 milhões no Maranhão em levantamentos demográficos e estudos de impacto social. O Maranhão tem vantagens sobre outros estados para projetos de aço: está próximo da ferrovia da Vale, da produção de minério de ferro em Carajás (PA) e tem o porto de Itaqui, que pode escoar o aço para mercados dos EUA e Europa. Martins diz que as novas usinas na China e Índia estão voltadas para o mercado asiático. Por isso, a seu ver, o Brasil teria condições de continuar atraindo investimentos para atender o mercado ocidental.