Título: Correios e Mensalão terão relatório parcial conjunto
Autor: Maria Lúcia Delgado
Fonte: Valor Econômico, 31/08/2005, Política, p. A15
As CPIs Mistas dos Correios e do Mensalão vão concluir até amanhã um relatório parcial conjunto sobre o envolvimento de pelo menos 18 parlamentares no esquema investigado de distribuição de recursos para partidos por meio de saques em contas de empresas de Marcos Valério Fernandes de Souza, no Banco Rural. Os relatores das duas CPIs não pedirão diretamente a cassação de parlamentares, até porque essa não é uma prerrogativa das comissões de inquérito, mas vão citar os casos em que caberia perda de mandato por quebra de decoro, conforme provas já coletadas. O deputado José Dirceu (PT-SP), ex-ministro chefe da Casa Civil, constará na lista dos que, para as CPIs, devem ser cassados. O relatório pode ser votado no plenário das duas CPIs ainda amanhã. Se aprovado, será enviado diretamente ao presidente da Câmara, Severino Cavalcanti. O relator da CPI dos Correios, Osmar Serraglio (PMDB-PR), considera que Dirceu é um parlamentar "muito comprometido" e que a situação do petista é "muito complicada". "A meu ver, é uma situação que exige punição muito severa", disse Serraglio. Segundo o relator, alguém no governo "haveria de estar conduzindo" o esquema investigado. "Aparentemente, tínhamos um chefe de Estado e um chefe de governo. O José Dirceu era o chefe de governo", concluiu o relator, ponderando que o ex-ministro era o responsável por nomeações nas estatais, atendendo a interesses de partidos aliados. O relatório vai detalhar o volume de saques feitos por cada deputado ou assessores deles. Será um trabalho conjunto de Serraglio e Ibrahim Abi-Ackel (PP-MG), relator do Mensalão. Não faz diferença, para Serraglio, se o deputado sacou diretamente na boca do caixa ou se mandou um emissário. A lista poderá ser ampliada e novos nomes incluídos, como o do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG). Na campanha dele, em 1998, também houve um esquema de caixa 2 com Marcos Valério. Apesar de o caso não ser o mesmo dos demais parlamentares, Azeredo admitiu o caixa 2. Outro petista cuja situação também é complicada, conforme Serraglio, é o ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha. A mulher dele, Márcia Milanese, fez saques no Rural. João Paulo disse, inicialmente, que a mulher foi ao banco para pagar dívidas de TV a cabo. O relatório vai aliviar a situação de alguns parlamentares, como os líderes do PL, Sandro Mabel (GO); e do PP, Pedro Henry (MT). O caso dos dois é diferente, segundo Serraglio. "O deputado Sandro Mabel não recebeu dinheiro de ninguém. O deputado Pedro Henry idem", afirmou Serraglio. Os dois serão citados no relatório, mas sem indícios que justificassem a cassação. Ambos foram citados pelo deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) como distribuidores e beneficiários dos recursos do mensalão para o PL e PP. No caso de Mabel, há outra denúncia: a deputada licenciada Raquel Teixeira (PSDB-GO) confirmou que recebeu um convite do líder do PL para ingressar na legenda em troca de dinheiro. Se o relatório for aprovado, Severino terá que enviá-lo à Corregedoria da Câmara, que decidirá se recomenda ou não abertura de processo de cassação contra os parlamentares ao Conselho de Ética. O corregedor, Ciro Nogueira (PP-PI), aliado de Severino, disse ontem que emitirá o parecer em no máximo 48 horas. Ele disse, no entanto, que a CPI dos Correios aprofundou pouco as investigações. Deixou claro, ainda, que só manda para o Conselho de Ética os casos com "subsídios definitivos". A decisão de elaborar o relatório conjunto foi tomada ontem, em reunião dos presidentes e relatores das três comissões - Correios, Mensalão e Bingos - com o presidente do Senado, Renan Calheiros. Provocou reações imediatas. No gabinete do líder do PMDB no Senado, Ney Suassuna (PB), pelo menos três deputados que constarão na lista protestavam: Mabel, José Janene (líder do PP) e Paulo Rocha (ex-líder do PT). Inicialmente, o relatório seria elaborado apenas por Serraglio. Para evitar conflitos entre CPIs e a protelação das investigações contra parlamentares, a melhor saída foi a elaboração do relatório conjunto. O relatório parcial, argumentaram os parlamentares, não cessa o trabalho das CPIs.(Colaborou Raymundo Costa)