Título: Juro sobe por suspeita de Selic ainda estável
Autor: Luiz Sérgio Guimarães
Fonte: Valor Econômico, 01/09/2005, Finanças, p. C2
O último dia de agosto foi de exageros e contradições. O mercado, movido pela clássica especulação de fim de mês, exorbitou na alta da Bolsa e na queda do dólar. E o mercado monetário ignorou as quatro deflações seguidas detectadas pelos IGPs e reagiu, com avanço do juro futuro, a números de expansão do PIB brasileiro considerados excelentes. Predominou ontem entre analistas o raciocínio de que o crescimento de 1,4% registrado pelo PIB no segundo trimestre do ano retira urgência da intenção, já sinalizada pelo Banco Central, de iniciar a flexibilização monetária neste mês que começa hoje. O Copom não teria mais pressa para proceder a descida da Selic já que a economia está se expandindo num ritmo acima do previsto no começo do ano. Trata-se de um raciocínio torto e estranho. Enquanto o crescimento dos países emergentes, excluída a China, está rodando a 6% ao ano, o Brasil se contenta com 3,9%. O crescimento nem chega a ser medíocre, já que está abaixo da média, mas satisfaz plenamente o mercado e o Banco Central. O país não cresce mais por causa do juro excessivamente elevado, cujo efeito mais notável é a apreciação cambial que derruba a inflação. O crescimento seria bem maior, na média dos emergentes, se o governo encontrasse outra forma de combater a inflação que não fosse a valorização do real via juro absurdamente alto. Mas isto não faz parte do modelo do BC. Este impôs um longo aperto monetário visando trazer o IPCA para o intervalo superior (entre 5,1% e 7%) da banda de inflação e reduzir o crescimento do PIB a 3,5% ao ano. Mais dinâmica do que supõem os modelos econométricos do BC, a economia reagiu inesperadamente: a inflação ficará perto do centro da meta e o PIB crescerá mais do que 3,5%.
Mercado exagera no último dia de agosto
Como o BC não pode correr o risco de produzir um crescimento asiático com inflação suíça, a tendência é de manter a Selic congelada em 19,75% até outubro. Esse raciocínio enviesado provocou alta geral dos contratos mais curtos, para este ano, negociados no mercado futuro da BM&F. Até terça-feira o pregão estava disposto a admitir duas quedas de 0,25 ponto percentual da Selic. Ontem, não mais. O contrato para a virada de outubro para novembro avançou de 19,49% para 19,51%. O CDI previsto para o final do ano subiu de 19,13% para 19,14%. Há sempre um argumento novo a justificar a manutenção do aperto monetário. No mês passado foram as incertezas relacionadas a crise política. Depois veio a escalada do petróleo. Agora, o fantástico crescimento do PIB. Mesmo que reais e efetivos, o que não é o caso, nenhum desses pretextos têm força para sustentar o aperto. O fator que de fato teria efeito decisivo - uma disparada dos juros americanos de longo prazo que provocasse uma contração na liquidez internacional - ainda não está no horizonte. Pelo contrário: apesar dos temores do Fed, a revisão para baixo do PIB americano (para 3,3% no segundo trimestre ante expectativa de 3,5%) conseguiu reduzir, pela manhã, ainda mais os juros dos papéis de 10 anos do Tesouro americano. Eles caíram de 4,09% para 4%. O Fed já sinalizou que deseja juro de 4,4%. Mas não consegue elevá-lo apenas mantendo o ritmo comedido de alta dos Fed Funds. Os "vendidos" no mercado futuro de dólar da BM&F nem precisavam da alta do DI futuro para derrubar a moeda à vista. O dólar caiu 1,13%, para R$ 2,3580, anulando a valorização registrada no mês até a véspera. Fechou agosto com baixa acumulada de 0,92%. No ano, já desvalorizou-se 11,15%. A Bovespa subiu 1,60% ontem e 7,689% no mês.