Título: Eleição busca separar o novo e o velho Japão
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 09/09/2005, Internacional, p. A9
Sob vários aspectos, trata-se de uma eleição sem precedentes no Japão, de modo que o resultado do domingo poderá desmentir as pesquisas. Mas, a dois dias da votação, o Partido Liberal Democrático (PLD) tem uma vantagem tão grande nas pesquisas que é generalizada a expectativa de que ele continuará no poder, como nos últimos 25 anos (à exceção de um interregno de dez meses). Mas a vantagem não significa que a a disputa eleitoral perdeu seu suspense. Isso porque o primeiro-ministro japonês, Junichiro Koizumi, que tenta se reeleger, está enfrentando dois adversários bastante distintos nesta eleição, que ele decidiu convocar um mês atrás, quando seu plano de privatização do Correio não foi aprovado no Parlamento. Um dos oponentes é o grupo de parlamentares rebeldes do seu próprio PLD, que votou contra o plano de privatização e que constitui uma das alas mais ferozmente anti-reformistas do partido. O outro adversário de Koizumi é o Partido Democrata do Japão (PDJ), de oposição, que contribuiu substancialmente para a democracia no país ao longo dos últimos anos, ao competir contra o PLD. Em tese, Koizumi deverá arrasar os rebeldes no domingo, sem causar excessivo dano ao PDJ. Nenhum dos desfechos é garantido. É evidente, porém, que os eleitores japoneses estão antenados, e em sua maioria a favor das reformas defendidas por Koizumi. O agressivo ataque do premiê contra os rebeldes, incomum num país acostumado ao consenso, despertou boa parte do país e melhorou sensivelmente a posição de Koizumi nas pesquisas. Muitos eleitores jovens e urbanos, que se distanciaram do partido nos últimos anos, agora dizem apoiar o premiê e seu PLD expurgado. As pesquisas sugerem que, desta vez, os japoneses estão muito mais motivados para votar. E pessoas normalmente apolíticas estão discutindo a disputa eleitoral muito mais do que em anos anteriores. Koizumi conquistou os eleitores reformistas de duas maneiras. Em primeiro lugar, escolheu um tema único, a privatização do Correio (que, com US$ 3 trilhões em depósitos, é de fato a maior instituição financeira do mundo), como teste para todo seu plano de reformas econômicas. Alguns observadores podem achar isso estranho, tendo em vista que o plano de privatização é menos radical do que parece. Trata-se de um projeto bastante diluído, e muitos economistas alegam que eventuais benefícios resultantes da liberação dos mercados de capital só devem advir lentamente. Além disso, o PDJ está certo quando diz que, no geral, sua própria agenda é muito mais reformista que a de Koizumi. E o PDJ está falando sobre tópicos, como a questão das aposentadorias, que preocupam muito mais diretamente a maioria dos eleitores. Mas muitos eleitores parecem compreender o "teste postal" de Koizumi melhor que os analistas políticos. Ainda que não seja a questão econômica mais urgente no Japão (e Koizumi diz que é), ela permite que traçar uma nítida linha divisória dentro de seu próprio partido, e dá ao eleitorado japonês uma clara escolha entre dois PLDs: o velho, que Koizumi quer destruir, e um novo PLD, que o premiê promete que será melhor. Koizumi pouco diz sobre esse novo PLD, que, em caso de sua vitória, conservará muitos de seus conhecidos velhos membros e conexões. Mas a mensagem implícita de Koizumi é que, se os eleitores lhe derem uma retumbante demonstração de apoio e o ajudarem a derrotar os piores elementos do partido, isso injetará mais ousadia aos reformistas do PLD, que desejam libertar o partido do controle de grupos de interesse específicos. No passado, revelou-se difícil, para os eleitores, mandarem um recado a um partido sem personalidade e sem princípios. Assim, Koizumi recorreu ao "teste postal" para dar nomes e caras ao problema. Ele também ampliou substancialmente as chances de sua estratégia dar certo ao adotar uma segunda tática: os "assassinos". Em todo o país, Koizumi engajou candidatos populares e marcantes para enfrentar os caciques da velha-guarda do PLD em seus bem defendidos distritos eleitorais. Muitos são mulheres, entre elas uma economista de um banco estrangeiro, um famoso chef de cozinha, uma ex-miss e uma conhecida figura do governo que a mídia chegou a apontar como noiva ideal para o divorciado Koizumi. Todos eles apóiam a privatização postal. Boa parte dessas articulações cheiram a artimanha eleitoral. Mas elas criaram uma nítida distinção, no imaginário da opinião pública, entre os rebeldes, que querem se apegar ao velho Japão, e o grupo de Koizumi, que reflete as diversidades de um novo Japão. A tática também permitiu a Koizumi recuperar sua fama de moderninho, o que levantou sua popularidade da mesma maneira como a sua revista "Coração de Leão", distribuída por e-mail, e um CD de suas músicas favoritas de Elvis Presley o ajudaram a conquistar o cargo de primeiro-ministro, em 2001. Há, porém, uma grande diferença entre aquele época e o momento atual. Em 2001, analistas políticos preocupavam-se com o risco de a popularidade de Koizumi despencar depois que se apagassem os holofotes da mídia e depois que os eleitores começassem a se distanciar de sua insistência em reformas. Agora, a preocupação é com o fato de que ele continua popular, mas não implementará tanta reforma como desejam os eleitores. Koizumi não mudou tanto. Mas os eleitores avançarem bastante.