Título: Concordatária, Eucatex passa a ser dirigida pelo vice de Flávio Maluf
Autor: Paulo Henrique de Sousa
Fonte: Valor Econômico, 13/09/2005, Política, p. A5
As prisões do ex-prefeito de São Paulo Paulo Maluf e de seu filho Flávio Maluf não vão alterar a situação das empresas da família, segundo o advogado Murilo da Silva Freire, sócio do escritório Leite, Tosto e Barros Associados, que representa a família no processo de concordata da Eucatex. O vice-presidente José Antônio Goulart assumiu a presidência da Eucatex ainda no sábado, quando ambos foram presos, segundo informou a assessoria de imprensa da companhia. O advogado lembrou que Goulart já vem administrando a empresa de fato, ainda que Flávio Maluf seja o presidente. Segundo a assessoria de imprensa, a empresa está funcionando normalmente. A Eucatex S.A. e a Eucatex Química e Mineral entraram em concordata em abril de 2003. Na época, a empresa culpou os juros altos e a dificuldade de negociar a dívida - as despesas financeiras teriam chegado a R$ 400 milhões, enquanto a geração de caixa era de R$ 80 milhões, em 2002. Em abril deste ano, a juíza Renata Cristina Rosa da Costa Silva, da 3ª Vara da Comarca de Salto, interior de São Paulo, aceitou o pedido de desistência da concordata da Eucatex Química, já que a empresa teria cumprido todos os compromissos. No último dia 16 de agosto, a Eucatex S.A. pediu a extinção da concordata e a migração para a condição de "recuperação judicial". Segundo Freire, isso vai facilitar a negociação de uma dívida alta (que ele não quis informar) com "quatro ou cinco entidades" (bancos), que não estavam inscritos na concordata. A dívida da Eucatex S.A, a empresa principal do grupo, seria de R$ 285 milhões, principalmente com os bancos Bradesco, Itaú BBA e Unibanco. Freire explicou que a mudança vai possibilitar a negociação direta entre a Eucatex e os credores. As partes poderiam negociar o pagamento das dívidas como bem entenderem. Segundo o advogado, já houve negociações entre a Eucatex e os credores antes do pedido de recuperação judicial. Eles teriam acertado o pagamento da maior parte da dívida em forma de transferência de bens, imóveis e de dinheiro vivo. Na concordata, essa negociação demoraria muito e poderia inviabilizar todo o processo. Se a juíza da Comarca de Salto aceitar o pedido de migração, o advogado terá 60 dias para apresentar a ela um plano de recuperação judicial, com um cronograma detalhado de pagamento das dívidas com os bancos. Freire avalia que a decisão da juíza poderá demorar mais cerca de 40 dias, já que a juíza estaria com "excesso de trabalho". O plano ainda será submetido a uma assembléia exclusiva para os credores financeiros. Entre os créditos inscritos na concordata, a consultoria Progus figurava como um dos maiores credores. A consultoria comprou créditos da Eucatex com deságio de mais de 30%. O sócio da Progus Marcos Mantovani foi procurado ontem, mas não retornou o pedido de entrevista. O ex-prefeito Paulo Maluf obteve o controle acionário do Grupo Eucatex em dezembro de 1996, ao comprar a parte do irmão Roberto. Nicéa Pitta, ex-mulher do ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta, denunciou que o dinheiro da compra do controle da Eucatex teria vindo de obras públicas superfaturadas. No capital social da Eucatex estão três fundos de investimento sediados na Ilha de Jersey, um paraíso fiscal localizada no Canal da Mancha. Juntos, deteriam 35% do capital. Os advogados que cuidam do caso de Maluf na esfera criminal foram procurados ontem, mas não deram retorno. Nas quatro unidades, a Eucatex fabrica materiais para construção como pisos laminados, divisórias, forros, painéis de madeira aglomerada, tintas e até produtos agrícolas, como químicos para a correção de solo.