Título: Oposição resiste a nome petista para sucessão
Autor: Raymundo Costa e Maria Lúcia Delgado
Fonte: Valor Econômico, 15/09/2005, Especial, p. A16
Com o deputado Severino Cavalcanti (PP-PE) afastado na prática da presidência da Câmara - ontem ele nem sequer pode comandar a sessão que julgou o deputado Roberto Jefferson -, o governo e os partidos políticos resolveram acelerar as conversas para a escolha de um sucessor. Dada como certa até ontem, a escolha de um nome do PT de comum acordo com a oposição perdeu terreno até mesmo entre as siglas aliadas ao Planalto. Antes de protocolarem a representação contra Severino no Conselho de Ética, PSDB e PFL admitiam conversar sobre uma indicação do PT, partido que até hoje detém a maior bancada da Câmara (89 deputados). A situação mudou. Ontem o líder tucano, Alberto Goldman (SP), disse que vai esperar a mudança de direção do Partido dos Trabalhadores, em eleição marcada para o domingo, para voltar a conversar. Até mesmo para ter com quem conversar", afirmou. No PFL, o líder da minoria José Carlos Aleluia (BA), conversava com o ministro Jaques Wagner (Relações Institucionais) e demonstrava disposição de apoiar nomes petistas como os do líder do governo, Arlindo Chinaglia (SP), Sigmaringa Seixas (DF) e Paulo Delgado (MG). Mas o presidente da sigla, Jorge Bornhausen (SC), vetou o apoio a qualquer nome do PT. Além disso, causou mal estar entre os pefelistas o fato de o PT e o governo se esquivarem na hora em que a oposição decidiu representar contra Severino no Conselho de Ética. O duro discurso contra o PT proferido ontem pelo deputado Roberto Jefferson também contribui para a exaltação de ânimos contra a indicação de um petista para a presidência. Dois dos candidatos que o PFL admitia apoiar também passaram a ser vistos com desconfiança: Sigmaringa Seixas, por ter viajado para pescar na companhia do deputado José Dirceu (SP), e de Chinaglia. Jefferson ontem o acusou de tê-lo procurado, no início da crise, sugerindo que ele, o petebista, assumisse a culpa pelo episódio dos Correios a fim de evitar o agravamento da crise. O nome de Chinaglia tem rejeição no próprio PT, por ter uma vinculação muito direta com o governo. Devido à gravidade da crise, o PT tenta tratar a sucessão com discrição, pois avalia que o processo pode queimar candidaturas viáveis expostas prematuramente. O PT ainda trabalha com o nome de Sigmaringa e o do deputado José Eduardo Cardozo (SP) - que o Planalto tem dificuldades para assimilar, assim como a opção Paulo Delgado. Cardozo e Delgado também enfrentam resistências internas no partido. Outra hipótese em cogitação entre os governistas passou a ser bombardeada pela oposição: a indicação de um ex-ministro do governo Lula, como Aldo Rebelo (PCdoB-SP) ou Eduardo Campos (PSB-PE). A correligionários, Eduardo Campos já avisou que não quer a missão. O PT, de qualquer forma, corre o risco de chegar dividido à eleição, assim como ocorreu quando Severino foi eleito: a esquerda vai lançar um candidato. O nome mais provável, até agora, é o do deputado Walter Pinheiro (BA). "Nós não podemos colocar como critério para a sucessão de Severino apenas a maior bancada. Pode até ser tema para início de conversa, mas devemos dar exemplo de maturidade e buscar uma candidatura de consenso", disse o líder do PSB, Renato Casagrande (ES). O gaúcho Beto Albuquerque é uma opção dos socialistas. O critério da maior bancada também ameaça o PT: é real a perspectiva de o partido perder deputados e de o PMDB ganhar pelo menos uma dezena. Aliados do governo na decisão de não representar contra Severino, os pemedebistas também torcem o nariz diante da possibilidade de o PT indicar o novo presidente da Câmara. O PMDB gostaria de indicar, mas esbarra numa questão política: o Senado já é presidido pelo partido e a legenda não reúne, no momento, uma hegemonia tal que lhe permita reivindicar o comando das duas Casas do Congresso. (MLD e RC)