Título: Empresário mostra cópia de cheque nominal à secretária
Autor: Raymundo Costa e Maria Lúcia Delgado
Fonte: Valor Econômico, 15/09/2005, Especial, p. A16
A situação do presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti (PP-PE), complicou-se, ontem, a partir da apresentação de uma prova material de parte dos pagamentos que ele teria exigido do empresário Sebastião Augusto Buani para manter o restaurante Fiorella como concessionário da Câmara. Em tumultuada entrevista coletiva na sede da Polícia Federal, em que seu advogado e sua mulher disputavam a cena da fotografia que exibiria a prova, Buani mostrou a cópia de um cheque de R$ 7,5 mil, sacado em 30 de julho de 2002 por Gabriela Kênia Martins, secretária de Severino. Segundo o empresário, o cheque, nominal a Gabriela, foi emitido para completar o pagamento mensal de R$ 10 mil que ele fazia ao então primeiro secretário da Casa. Buani disse que, normalmente, o "mensalinho" era pago em dinheiro, tirado diretamente do caixa de suas lanchonetes e de seus restaurantes nas dependências da Câmara. Por se tratar de um mês de recesso, com pouco movimento, em julho de 2002, porém, ele teve que recorrer a sua conta bancária pessoal. "Foi um mês duro. Eu não tinha mais de onde tirar", afirmou. Buani negou que tenha praticado corrupção ativa, pois não teria oferecido propina. Segundo ele, o que houve foi extorsão. "Fui extorquido", disse o empresário, alegando não ter outra alternativa para resguardar o alto investimento que fez na instalação de quatro restaurantes e sete lanchonetes nas dependências da Câmara. "A minha vida estava lá. Eu não tinha para onde correr. Tudo que eu tinha estava lá", justificou. O empresário contou que Severino aproveitava idas ao restaurante do décimo andar do Anexo IV da Câmara para lembrá-lo do compromisso de pagamento mensal. "Ele sempre dava um aperto. Não deixa de ser um arrocho". Também teria havido cobranças por telefone. Ainda segundo Buani, em julho de 2002, ao ouvir dele que estava com dificuldade de levantar o dinheiro, Severino teria respondido: "Tira da sua conta na Suíça". Conforme o empresário, o cheque de R$ 7,5 mil foi entregue diretamente ao próprio Severino no mesmo restaurante. Buani não soube dizer exatamente quando começou a pagar o "mensalinho". Até obter a cópia do cheque, ele não lembrava que o problema vinha de tanto tempo. "Foi uma surpresa para mim saber que meu calvário não durou só cinco ou seis meses", afirmou. Ele disse que, além de ter feito pagamentos mensais, deu R$ 40 mil para que Severino assinasse um documento renovando a sua concessão. O documento, cuja autenticidade é contestada pelo deputado, é de abril de 2002. Antes de mostrar a cópia do cheque nominal a Gabriela Martins, Sebastião Augusto Buani fez uma oração em frente às câmeras de TV. Agradeceu a Deus por ter se livrado -com a revelação do caso - da "única coisa" que o aborrecia. Antes disso, numa cena insólita, o seu advogado, Sebastião Coelho, aproveitou a entrevista coletiva ao vivo para pedir a outros empresários brasileiros que apóiem Buani financeiramente, doando recursos para que ele pague suas dívidas.