Título: Severino já admite renunciar ao mandato
Autor: Raymundo Costa e Maria Lúcia Delgado
Fonte: Valor Econômico, 15/09/2005, Especial, p. A16
Crise Cheque em nome de secretária complica situação
Pressionado pelo governo e pela oposição, o presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, já admite renunciar ao mandato entre hoje e amanhã. "Vou tomar uma decisão pensando na família, na Câmara e no país", disse Severino, no meio da tarde, quando enfim se resignou a não presidir a sessão que votaria o processo de cassação do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ). Até então, o deputado insistia não só em comandar a sessão como ameaçava lutar até o fim pelo cargo e pelo mandato. "Renunciar é a morte", chegou a comentar com deputados que se revezaram em sua casa, ao longo do dia de ontem. O drama de Severino começou quando o empresário Sebastião Buani apresentou, pela manhã, a cópia de um cheque no valor de R$ 7,5 mil sacado por uma secretária do deputado, Gabriela Kênia Martins. Seria a prova de que Severino recebera propina para facilitar os interesses do empresário, que explorava uma rede de restaurantes de lanchonetes na Câmara. A situação se agravou ainda mais porque Severino demorou a dar uma explicação. A primeira delas, vazada pelos deputados que estiveram em sua casa, dava conta de que se tratava de um empréstimo de Buani à secretaria. Severino classificara o empresário, em reuniões reservadas, de "agiota". A versão apresentada mais tarde não convenceu ninguém no Congresso: seria uma doação do empresário para financiar a campanha eleitoral de um filho de Severino. É a mesma versão apresentada pelo PT para o dinheiro recebido por deputados das empresas do empresário Marcos Valério Fernandes de Souza. Imediatamente, Severino começou a perder os poucos apoios que restavam. De Nova York, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva telefonou para o ministro Jaques Wagner (Relações Institucionais) e determinou que ele dissesse a Severino que o governo não tinha mais como apoiá-lo. A tarefa foi desempenhada pelo líder do governo na Câmara, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP). Os líderes dos partidos aliados seguiram em caravana para a casa de Severino, à exceção dos líderes do PSB e do PMDB. Os aliados saíram do Congresso com a missão de convencer Severino a renunciar à presidência da Câmara. Na véspera, PMDB e PSB haviam decidido não subscrever a representação que os partidos de oposição fizeram contra Severino no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar. Ontem, mudaram de idéia. Reunida para receber a filiação do deputado Delfim Netto (SP), a Executiva Nacional do PMDB resolveu mudar o rumo até então trilhado pelo partido. "Assim procede (o partido) tendo em vista o surgimento de prova consistente", diz nota oficial divulgada pelo partido. Referia-se ao cheque descontado por Gabriela. O PSB, que tinha optado pela cautela, também foi para o ataque ao tomar conhecimento do cheque. "Não é mais indício, não é mais suposição, não é mais o eu acho. Trazemos ao Conselho de Ética um fato novo", disse o presidente da legenda, Roberto Amaral. Ele alegou que o PSB não aderiu à representação organizada por partidos oposicionistas porque "não queria ter determinadas companhias" a seu lado. "Não queríamos acompanhar os partidos conservadores que elegeram Severino", argumentou Amaral. O clima esquentava nos corredores do Congresso. A esquerda do PT divulgou nota pedindo a renúncia imediata de Severino da presidência. O "Movimento Pró-Brasil", suprapartidário, reuniu em menos de meia hora 40 assinaturas de deputados pelo afastamento temporário de Severino. Na residência oficial, Severino oscilava entre a renúncia e o enfrentamento. "Tenho 74 anos, já perdi um filho e não tenho mais nada a perder", foi a reação inicial de Severino aos deputados que o procuraram, sugerindo o afastamento. Até mesmo um dos maiores defensores do presidente da Câmara, o líder do PP, José Janene (PR), defendia que a situação de Severino ficara insustentável. Janene é um dos 17 deputados contra os quais a Corregedoria da Câmara pediu a abertura de processo de cassação do mandato por quebra de decoro. Para o líder do PP, sem condições políticas para permanecer no cargo, Severino deveria tomar uma decisão pensando na Câmara e renunciar ao mandato para evitar a perda dos direitos políticos por oito anos. Os correligionários de Severino consideram a situação insustentável. O PP já perde filiados em vários Estados. Não bastasse a crise na Câmara, o partido ainda conta com a prisão de Paulo Maluf para acelerar o desgaste. Se efetivamente optar pela renúncia ao mandato, Severino tem de tomar a decisão até amanhã, quando a Mesa da Câmara deve devolver ao Conselho de Ética a representação protocolada na terça-feira passada pelo PFL, PSDB, PDT, PPS e PV e ontem subscrita por PMDB e PSB. Quando o Conselho abrir o processo de cassação, o deputado não poderá renunciar para evitar a perda dos direitos políticos. O presidente do Conselho de Ética, Ricardo Izar (PTB-SP), admitiu ontem que a descoberta do cheque "complica muito" a situação de Severino. "Até então tínhamos apenas indícios. Agora há uma prova concreta", disse ele. Segundo Izar, o processo contra Severino será conduzido de forma idêntica aos demais. No início do dia, em sua casa, Severino rejeitava recusava-se até mesmo a deixar de presidir a sessão que julgaria o deputado Roberto Jefferson. O PP então escalou o deputado Francisco Dornelles (RJ) para tentar convencer o presidente da Câmara a se manter "longe" da Casa. Severino, de início, manteve-se irredutível, mas foi cedendo ao longo da conversa, ao perceber que perdera, gradativamente, os apoios do governo, dos que o elegeram e do próprio PP.