Título: Telefonia pela internet chega ao varejo
Autor: Heloisa Magalhães
Fonte: Valor Econômico, 19/09/2005, Empresas &, p. B3

Voz sobre IP Popularização do serviço que reduz custo das ligações é uma tendência que preocupa as operadoras

A Casa & Vídeo, popular varejista carioca de utilidades do lar, e o Makro, na loja de Vila Maria, em São Paulo, estão vendendo telefones que funcionam por meio da internet, produto até agora praticamente restrito à lojas especializadas e ao comércio on-line. São os terminais que deixam de lado a rede de telefonia convencional e utilizam a banda larga - a voz sobre IP, ou VoIP, sigla em inglês para voz sobre protocolo da internet. O usuário escolhe um provedor do serviço e passa a falar via internet, com ligações mais baratas ou até sem tarifa, dependendo da forma de utilização. Telemar e Brasil Telecom, que já oferecem para empresas a voz sobre IP, estão se preparando para lançar o serviço para uso doméstico ainda este ano. A Telefônica, por sua vez, programa chegar ao cliente pessoa física em 2006. As operadoras ainda têm preocupação com qualidade, pois há casos em que o ritmo do som no telefone pode deixar a desejar. Elas reconhecem que, entrando nesse mercado, irão canibalizar a própria receita, mas identificam que a VoIP é um nicho que se dissemina com velocidade, especialmente para quem tem faz muitas ligações interurbanas ou para o exterior. Atualmente, o mercado potencial é o de 2,89 milhões usuários de banda larga (dados de junho) no país. Mas, como é preciso investir nos equipamentos, entre as operadoras não há expectativa de que o serviço venha concorrer, ao menos por enquanto, com o atendimento convencional, que totalizava, até julho, 39,368 milhões de assinantes em serviço e 50,220 milhões de linhas instaladas. O investimento nos equipamentos e a necessidade de assinatura de banda larga inibem o uso para os orçamentos apertados. Só os aparelhos custam por volta de R$ 200. Tanto Makro como Casa & Vídeo optaram pelo IP Phone Baby Net, fabricando pela brasileira Unicom. O sócio e diretor comercial da empresa, Pedro Bernardo Fernandes de Souza, que divide o controle da Unicom com o engenheiro Jânio Noboroshida, explica que o produto foi criado a partir de um microprocessador de alta velocidade que evita uma espécie de eco na voz - algo que pode acontecer quando a ligação IP é realizada direto do computador. A Unicom está estreando nesse segmento. Montou 10 mil terminais, mas se preparou para chegar a fabricar entre 10 mil e 15 mil unidades por mês. A trajetória da companhia começou pela produção de telefones convencionais - já produziu 5 milhões deles. O Makro escolheu apenas uma loja, onde o terminal chegou há 20 dias. A previsão é manter em testes por outros 20 dias. Já a Casa & Vídeo colocou o produto nas 68 lojas, no Rio e no Espírito Santo. As duas redes não informam o volume. Reconhecem que as vendas são ainda pequenas, mas destacam que a curiosidade é grande em torno do produto. Hoje, já é possível falar praticamente de graça pela internet, com a ajuda de produtos como o Skype, que conta com mais de 54 milhões de usuários no mundo e foi comprado na semana passada pelo e-Bay. Uma das desvantagens, no entanto, é que o usuário tem de ficar preso ao computador. Para usar o terminal IP, além da banda larga, é necessário ter um computador e um provedor do serviço. Há ainda a opção falar via internet, ligando um telefone comum à banda larga por meio de aparelho de conexão, conhecido como ATA, sigla de adaptador de telefone analógico. Esse aparelho custa entre R$ 200 e R$ 800, dependendo do modelo e da configuração. Um dos fabricantes nacionais do ATA é a Leucotron Telecomunicações. A empresa, de Santa Rita do Sapucaí (MG), desenvolve centrais de PABX e produtos de comunicação privada para os mercados corporativo e de pequenos escritórios. Neste ano, lançou um ATA batizado de Skyvoice que custa R$ 216, diz o diretor de marketing, Antonio Cláudio Oliveira. Ele informa que o produto vai ser exportado para países da América Latina. O telefone foi desenvolvido especificamente para comunicação via Skype, que oferece duas opções: fala ponto a ponto de forma gratuita ou então, para ligar para um telefone convencional, o usuário do Skype adquire um crédito de 10 euros e fala com qualquer parte do mundo com tarifa que pode ser até 50% mais barata do que a cobrada pelas teles. Apesar do uso ainda restrito, a expectativa em torno do potencial da telefonia IP está fazendo com que cresça o número de empresas especializadas. A consultoria Teleco contabilizou 32 prestadores de serviços de VoIP no país para o mercado corporativo, sendo que entre elas 24 são voltadas também para o assinante doméstico. Uma delas é a TMais, que permite ao cliente ter um número de telefone como o da linha convencional, só que baseado no VoIP. A empresa investiu R$ 3,5 milhões. Com mil clientes, pretende chegar ao final do ano com 20 mil e saltar para 200 mil no final de 2006, diz José Francisco Cavalcanti, presidente. A TMais quer dividir seu mercado em 75% de clientes corporativos e 25% residenciais. A estratégia que está sendo montada é ousada. A TMais acaba de abrir uma loja de teste no bairro Savassi, em Belo Horizonte. Porém, a iniciativa também passa pelos sites especializados, pelo telemarketing e pelos grandes varejistas. Outra novata é a Arvana Telecomunicações, joint venture entre a americana Arvana e o grupo brasileiro Global Info. Nasceu com o capital de R$ 5 milhões já tem 6 mil clientes e trabalha com a expectativa de atingir 70 mil em apenas três anos, diz o principal executivo, Paulo Messina. Há avaliações que identificam 50 milhões de usuários de VoIP no mundo, mas, como lembra o consultor Eduardo Tude, da Teleco, no Brasil esse número ainda não pode ser identificado. Ele destaca, porém, que tem havido queda de tráfego na longa distância local. No cálculo do PIB do segundo trimestre, o IBGE identificou queda de 18,7% no arrecadado com longa distância na comparação do mesmo trimestre do ano passado. Gerente das contas trimestrais do instituto, Rebeca Palis atribui, em parte, às novas tecnologias. O que também contribuiu para a queda foi a redução das áreas de longa distância no país, tornado locais ligações que em 2004 eram interurbanas.