Título: Com salário real em alta, inadimplência cai em SP
Autor: Raquel Salgado
Fonte: Valor Econômico, 19/09/2005, Brasil, p. A3
As seguidas quedas nos índices de inflação, tanto no atacado quanto no varejo, e o crescimento da ocupação afastaram o risco de uma bolha de inadimplência e devem ajudar as vendas no fim de ano. A Fecomercio apurou que em setembro a parcela de pessoas endividadas com contas em atraso cedeu de 46% para 37%. Dados da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) mostram que a inadimplência ficou em 4,7% em agosto, acima dos 4,2% de julho, mas bem abaixo dos 6% e 7% vistos entre fevereiro e junho deste ano. O aumento do rendimento real dos trabalhadores, fruto da queda da inflação, deve variar entre 2% e 5%. Isso porque, no fim do ano, o salário dos trabalhadores que estão fechando agora acordos com reajustes nominais entre 7% e 10%, vai sofrer a corrosão de uma inflação (acumulada em 12 meses) na casa dos 5%, e não dos atuais 6%. A estimativa é de Fábio Giambiagi, economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). "Se o dinheiro que receberem a mais virar demanda, com certeza teremos um Natal melhor do que o do ano passado", acredita. A inflação em baixa vai antecipar uma melhora de expectativas por parte do consumidor. A queda dos juros também vai colocar mais lenha nessa fogueira, mas esse efeito só terá impacto mais significativo a partir do primeiro trimestre de 2006, explica Fábio Silveira, sócio-diretor da MS Consult. O ganho real de salário também exerce pressão de baixa sobre a inadimplência e abre espaço tanto para a compra de produtos não-duráveis, como alimentos, quanto para nova prestação para aquisição de eletrodoméstico ou eletroeletrônico. A inadimplência tende a ficar comportada, ou até mesmo a ceder, porque as duas variáveis que a determinam estão caminhando de forma positiva, comenta Adriano Pitolli, da Consultoria Tendências. Por um lado, a massa salarial está em elevação: no acumulado de janeiro a julho, ela já subiu 4,8%. Em contrapartida, o prazo das compras financiadas tem se estendido, o que fará com que a parcela de renda comprometida com dívidas diminua. Pelos dados do Banco Central, as operações de crédito pessoal, que incluem empréstimo consignado em folha e com financeiras, aumentaram em quase 43%, entre julho deste ano e o mesmo mês de 2004. Ao mesmo tempo, o prazo médio de pagamento pulou de 258 dias para 306 dias, um crescimento de 18,6%. O cheque especial tem perdido espaço. Com prazo médio de 21 dias desde julho do ano passado, as operações avançaram apenas 6,7% em 12 meses. A MS Consult espera que a massa de salários aumente 4,3% este ano, consequência da elevação de 1% no rendimento e de 3,3% na ocupação. No ano passado, a massa salarial avançou 3,6%. Com isso, o volume de vendas do varejo deve ser 5% maior este ano. É um dado a ser comemorado, pois significa um crescimento sobre uma alta de 6,3%, verificada em 2004.