Título: Produtividade cresce com alta do emprego
Autor: Denise Neumann e Raquel Salgado
Fonte: Valor Econômico, 22/09/2005, Brasil, p. A3
Conjuntura Indicador evoluiu 2,6% até julho, ritmo inferior ao de 2004, mas distância entre ocupação e produção caiu
A produtividade do trabalho na indústria está crescendo pelo segundo ano consecutivo, após estagnar de 1998 a 2003. Até julho de 2005, o indicador subiu 2,6%, depois de evoluir 6,0% em 2004. O padrão da produtividade este é semelhante ao do ano passado, marcado pela evolução concomitante de produção e emprego. Mas há uma diferença: o crescimento do emprego é menos díspar em relação à produção. Em 2004, a produção cresceu 8,3% no ano, ritmo quatro vezes maior do que o 1,8% do emprego industrial. Em 2005, a produção evoluiu 4,3% e foi acompanhada por uma alta na ocupação de 2,2%, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) organizados pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). O cálculo de produtividade divide a produção física pelas horas pagas na produção, ambos de pesquisas do IBGE. O caminhar mais lado a lado de emprego e produção foi possível devido ao aumento do nível de utilização da capacidade instalada, segundo avaliação de Paulo Gonzaga, pesquisador do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em julho, a utilização da capacidade na indústria de transformação - medida pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) - ficou em 84,7%, acima dos 83,8% e levemente maior do que os 84,5% de julho do ano passado. Para Júlio Sérgio Gomes de Almeida, diretor-executivo do Iedi, o forte crescimento da produtividade em 2004 veio, em grande parte, do aumento do investimento em modernização. A mesma razão, diz ele, explica a perda de dinamismo do indicador em 2005. "O governo sinalizou para a queda dos investimentos ao elevar e manter alta a taxa básica de juros", diz ele. Para o economista André Nassif, do BNDES, o crescimento da produtividade em 2004 está diretamente relacionado ao nível de atividade da economia. "É sempre mais provável, e saudável, que ela cresça mais em períodos de crescimento do que em momentos de estagnação econômica. Isso só não acontece quando o ciclo de expansão está ocorrendo simultaneamente à introdução de grandes mudanças tecnológicas, que impliquem forte queda do emprego", observa Nassif, lembrando da década de 1980 na Europa, com a revolução microeletrônica. O Iedi acredita que a produtividade possa crescer ao longo do segundo semestre e encerrar o ano com alta de 3%. "Um incremento de 10% em dois anos será um resultado importante", pondera Almeida, lembrando que ele sinaliza ganhos de competitividade para a indústria local em relação aos concorrentes no mercado externo. A aceleração do ritmo de ganhos de eficiência ao longo dos últimos meses do ano, contudo, está relacionada ao comportamento do investimento, avalia o diretor do Iedi. "A maior demanda por bens de capital nos últimos meses pode ser reflexo de um desrepresamento de projetos e não configurar uma tendência", avalia. Na avaliação do Iedi, manter o padrão de ganhos de produtividade com aumento do emprego é um desafio. Em estudo sobre a expansão recente da produtividade, o Instituto pondera que a estagnação do indicador no período 1998-2003 "sugere que o recurso de ampliar a produtividade via decréscimo do emprego, característico dos anos 1990, já se esgotou, devendo a produtividade ser sustentada futuramente na ampliação de capacidade e na absorção de recursos produtivos mais eficientes". Nassif, do BNDES, é cético com relação a essa hipótese. Ele acha que ela só se confirmará se a retomada do crescimento eliminar a forte valorização do real frente ao dólar. Para ele, uma taxa de câmbio como a atual é um forte estímulo "à substituição de homens por máquinas como principal fonte de ganhos de produtividade". Para o economista, isso já pode estar ocorrendo (e nesse caso, o emprego deve voltar a crescer a um ritmo bem inferior ao da produção). Nassif vê dois sinais dessa "substituição": o pessoal ocupado vem caindo (exceto abril) desde fevereiro e os investimentos aumentaram nos últimos meses, muito deles na forma de importações de bens de capital, que ficaram bem baratos devido ao câmbio. Apesar do crescimento da produtividade no conjunto da indústria ter sido acompanhado de aumento de emprego e das horas pagas, em alguns setores a realidade foi diferente. Para Gonzaga, "estamos melhor do que nos anos 90, mas nem tanto assim, porque o ideal é que uma produtividade maior seja acompanhada por mais emprego e mais horas pagas". O trabalho do Iedi mostra que as maiores taxas de produtividade no primeiro semestre deste foram registradas naqueles setores com queda nas horas pagas, voltando ao padrão dos anos 90. O principal exemplo é o setor de calçados e couro. Essa atividade industrial foi a que apresentou o maior ganho de produtividade , chegando a um aumento de 13,8% no primeiro semestre deste ano. No entanto, o resultado reflete uma alta de 2,5% na produção e uma forte queda, de 9,9%, nas horas pagas. Por outro lado, nos dois setores em que o aumento das horas pagas foi maior - coque e refino de petróleo e fabricação de meios de transporte, com elevações de 15,6% e 11,2% -, não houve acréscimo de produtividade. Gonzaga acredita que o ganho está sendo menos perverso para os trabalhadores do que aquele observado na década de 90. Como a reestruturação da produção já foi feita, o pior já passou. Além disso, com o crescimento no nível de emprego, o trabalhador tem mais poder de barganha para negociar salários.