Título: Tarifas minam o poder de compra da classe média
Autor: Raquel Salgado
Fonte: Valor Econômico, 04/11/2004, Especial, p. A-14

O poder de compra da classe média está sendo duplamente corroído. Além do estabelecimento de teto para os reajustes salariais - que têm impacto direto sobre a renda das famílias, abatida pela inflação - o dinheiro fica mais curto pela constante e crescente alta dos preços administrados, como tarifas públicas e combustíveis. Trabalhadores com salários acima da média de suas categorias são os que têm um padrão de vida melhor e, conseqüentemente, também gastam mais com energia elétrica, telefone e combustível, entre outros serviços públicos. "Essas pessoas possuem vários eletrodomésticos, utilizam com freqüência os telefones fixos e quase sempre têm pelo menos um carro na garagem", explica Fábio Romão, da LCA Consultores. Segundo o Dieese, em cinco anos, na comparação entre agosto de 1999 e o mesmo mês em 2004, quem ganha acima de R$ 2.038, os 10% mais ricos dentre os ocupados da região metropolitana de São Paulo, teve seu rendimento médio diminuído em 29%, enquanto para os salários mais baixos (até R$ 600) a redução foi um pouco menos brusca, 21%. No mesmo período, o comprometimento da renda dos trabalhadores com preços administrados subiu sensivelmente. Cálculos da LCA mostram que, em agosto de 1999, a fatia da renda gasta com tarifas e combustível era de 20,7%. Em junho de 2004, esse percentual já estava em 25,5%. Além dos reajustes não serem suficientes para recompor as perdas com a inflação, as parcelas fixas trazem outro problema aos trabalhadores: toda a rede de proteção social, como FGTS, 13º salário e contribuição para a previdência desconsidera os abonos concedidos. Ou seja, no aumento de salário ou na demissão do funcionário, por exemplo, os cálculos não incidem sobre a soma de salário mais remunerações variáveis e sim sobre o valor do rendimento registrado em carteira. Na opinião do secretário municipal de desenvolvimento, trabalho e solidariedade, Márcio Pochmann, o país passa por um momento de "redução do leque salarial, que se dá numa redistribuição de renda entre os salários". Ou seja, há uma menor diferenciação dos salários, pois a medida que quem ganha mais tem seu salário reduzido, os rendimentos dos cargos intermediários vão se aproximando dos cargos mais baixos e menos qualificados. Segundo ele, tal processo ocorre desde o governo Sarney, mas se intensificou nos últimos anos. O secretário lembra ainda que "as empresas usam o artifício da remuneração variável para compensar a diminuição do componente fixo do salário", diz. Para Pochmann, "a perda do poder aquisitivo do salário mínimo atrelada aos últimos dez anos de relativa estabilidade monetária abriu espaço para diferenciação maior dos reajustes". Ao mesmo tempo, isso trouxe redução da desigualdade social por meio de um modelo muito perverso: o do achatamento salarial da classe média e não pela recuperação da renda dos mais pobres. (RS)