Título: Salários mais altos recebem menos do que a inflação
Autor: Raquel Salgado
Fonte: Valor Econômico, 04/11/2004, Especial, p. A-14

Trabalho Sindicatos fortes aceitam reajustes que achatam renda média A prática de conceder reajustes salariais mais modestos para os trabalhadores com maiores rendimentos está cada vez mais presente nas negociações de acordos coletivos e contribui para o achatamento salarial da classe média. Nos dissídios coletivos, aqueles que recebem salários mais altos não têm conseguido, muitas vezes, recompor seus salários com base na inflação dos últimos 12 meses. Mesmo categorias combativas e organizadas, como metalúrgicos do ABC e químicos de São Paulo, têm aceitado, para os maiores salários, reajustes que são parcelas fixas ou mesmo abonos que não incidem sobre o total do salário recebido. Quando o aumento não é incorporado ao salário ele não têm efeito sobre contribuição previdênciária, fundo de garantia sobre tempo de serviço (FGTS), nem sobre o cálculo das férias, por exemplo. No caso do reajuste fixo, mesmo que incorporado ao rendimento, ele não recupera todo o poder de compra, uma vez que a inflação só é reposta para uma parcela do salário. O reflexo desse procedimento aparece de forma clara nas estatísticas de renda. Dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese) apontam que, nos doze meses encerrados em agosto, os 10% dos ocupados mais ricos (com salários acima de R$ 2.038) tiveram uma queda de 5,34% em seus rendimentos. Ao mesmo tempo, os 50% mais pobres (salários até R$ 600) viram seus rendimentos crescerem 7,53% nos mesmos doze meses. A regra cada vez mais comum nos dissídios funciona como um escalonamento salarial que puxa a renda média para baixo. Também há acordos com parcelamento do reajuste em vários meses. No primeiro exemplo, há casos em que o trabalhador precisa negociar individualmente e de forma direta com as empresas, o que lhe deixa em desvantagem em relação aos empregados que têm seus interesses representados e defendidos por entidades sindicais. Apesar da recente melhora da economia representar uma brecha para os representantes sindicais reivindicarem aumentos reais de salário, ela ainda não é suficiente para impor aumentos lineares a todos os cargos, independentemente do valor do salário. Eunice Cabral, presidente do Sindicato das Costureiras de São Paulo, que agrega 70 mil trabalhadoras, conta que há três anos, quando o escalonamento não era aplicado neste setor, pessoas com salários mais altos eram demitidas. "Aceitamos o escalonamento, pois é preciso manter os empregos", argumenta Eunice. Na negociação de 2004, as costureiras que ganham até R$ 1,6 mil tiveram seus salários reajustados em 6,5%. Para trabalhadores que estão acima dessa faixa salarial, geralmente cargos de chefia ou ligados à área de recursos humanos, o índice de reajuste é aplicado somente sobre R$ 1,6 mil. Quem ganha R$ 2 mil, por exemplo, tem um acréscimo mensal de R$ 104 e não de R$ 130, que seria o valor com o reajuste de 6,5% sobre os R$ 2 mil. No ABC, empregados em montadoras e autopeças tiveram escalonamento de salários pelo segundo ano consecutivo. Em 2004, os trabalhadores de montadoras que ganham até R$ 6 mil receberam reajuste de 10%, enquanto os salários acima deste valor tiveram uma parcela fixa de R$ 600 incorporada ao rendimento mensal. Já nas autopeças, o teto foi mais restrito: R$ 2,9 mil. Trabalhadores que ganham até esse limite receberam aumento de 9,57%, e quem ganha mais do que isso teve a parcela fixa mensal fixada em cerca de R$ 280. De acordo com o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, 35 mil trabalhadores das montadoras e o mesmo número nas autopeças se beneficiaram destes reajustes. Para os metalúrgicos, as parcelas fixas são incorporadas aos salários registrados em carteira. Para o diretor-técnico do Dieese, Clemente Ganz Lúcio, o aumento menor para a classe média é uma prática perversa, que reduz o padrão de vida da população. "Essa prática é comum de uma economia como a brasileira, em que durante muito tempo houve restrição ao crescimento, além de desemprego em patamar alto e de longa duração", afirma. Ele explica ainda que como a oferta de mão-de-obra é abundante, grande parte dos trabalhadores se dispõem a ganhar salários menores. Dessa forma, o escalonamento acaba sendo melhor do que a demissão. "Por um lado, esse tipo de negociação evita a rotatividade nas empresas", acredita. No ano passado, os químicos de São Paulo também tiveram que se render à exigência patronal que estabeleceu um aumento de 16%, mas com um teto de R$ 4,5 mil. Para salários acima deste valor, foi concedido abono fixo de R$ 720. Cerca de 10% de um total de 75 mil trabalhadores do setor ganham mais de R$ 4,5 mil, conta Danilo Pereira da Silva, presidente da Federação dos Químicos de São Paulo e vice da Força Sindical. Para este ano, o pedido da categoria é de 15% para todos os salários. Mas isso parece ser algo difícil, pois desde o início da década de 90 os químicos convivem com o escalonamento. "Foi uma barreira colocada pelos empresários", lamenta o sindicalista. "Por isso, como forma de compensação, pedimos aumentos maiores nos pisos da categoria", complementa. Os sindicalistas são contra a prática de escalonamento, mas acabam por aceitá-la devido ao alto desemprego no país. "Aqueles que estudaram e se especializaram mais devem ser recompensados. Não é porque ganham mais que não precisam de reajustes equivalentes aos dos menores salários", enfatiza a presidente do Sindicato das Costureiras. Assim como ela, Pereira da Silva acredita que um reaquecimento mais consistente da economia poderá dar aos trabalhadores maior poder de fogo nas negociações e abrir espaço para mais exigências, como reajuste salarial igual para toda categoria.