Título: Eleição de Bush traz alívio ao mercado
Autor: Cristiane Perini Lucchesi
Fonte: Valor Econômico, 04/11/2004, Finanças, p. C-2
Os participantes do mercado financeiro brasileiro focaram todas as suas atenções no resultado das eleições presidenciais nos Estados Unidos. O temor era um longo período de questionamento de resultados, como aconteceu na eleição anterior, e uma conseqüente crise de governabilidade no país que é a maior economia do mundo. A vitória do republicano George Bush, admitida ontem mesmo pelo adversário democrata John Kerry, animou as Bolsas de toda a América Latina, ao tirar um importante elemento de incerteza do cenário político internacional. Acompanhando o rali em Wall Street, a Bolsa de Valores de São Paulo subiu 1,67%, com o Índice Bovespa fechando a 23.660 pontos. O risco-Brasil, medido pelo índice EMBI + do JP Morgan, caiu 1,53%, para 451 pontos. O alívio também chegou ao mercado de câmbio brasileiro. No final do dia, o dólar caiu pelo terceiro dia consecutivo, 0,88%, para R$ 2,8290, o menor valor desde o dia 11 de outubro. Houve rumores de grande entrada de recursos. "O risco maior hoje para os países emergentes é de uma valorização forte em suas moedas contra o dólar, começando pela China e outros países asiáticos", alerta Arturo Porzecanski, economista-chefe para mercados emergentes do ABN AMRO. Com relação ao iene e ao euro, o dólar perdeu valor ontem por causa da vitória de Bush. "A reeleição de George Bush é negativa para o dólar no longo prazo", afirma Jim O' Neill, chefe de pesquisa econômica global da Goldman Sachs, à Bloomberg. Desde janeiro de 2001, quando Bush assumiu, o dólar já perdeu mais de 20% de seu valor contra cesta de moedas com importância comercial.
"A certeza é que Bush não vai fazer muita coisa para conter o aumento nos déficits fiscais e em conta corrente, pelo menos no curto prazo, e agora com respaldo da população dos Estados Unidos", diz Alberto de Oliveira, gerente de tesouraria do Banif Primus. Em relatório divulgado ontem, a Merrill Lynch avalia que, no curto prazo, a vitória de Bush é vista como positiva para o mercado de ações, pois o candidato vitorioso é visto como "a favor dos negócios". A corretora, no entanto, não está alterando sua previsão para o crescimento do Produto Interno Bruto americano em 2005, de 3%. E alerta que o rali inicial das ações de ontem não deve ser extrapolado para o futuro, pois, desde 1945, o mercado de ações subiu em seis dos sete primeiros anos de governo após vitória dos democratas e caiu em seis dos oito anos após vitórias dos republicanos. "Além disso, nossa pesquisa mostra que o mercado de ações tem performance três vezes melhor nos períodos nos quais partidos diferentes têm o poder na Casa Branca e no Congresso", diz o relatório. Agora, além de ganhar o Executivo, os republicanos ampliaram sua maioria na Câmara e no Senado.
Dólar cai 0,88% e vai a R$ 2,8290; Bolsa sobe
O rali nas ações em Wall Street foi contido ontem mesmo, no final do dia, pela alta nos nos preços do petróleo. Com os estoques maiores do que os esperados nos Estados Unidos, os preços despencaram para o recorde de baixa em um mês -US$ 48,65. Mas, quando Kerry reconheceu publicamente sua derrota, os preços do óleo voltaram a subir. Bush autorizou o preenchimento das Reservas Estratégicas de Petróleo dos Estados Unidos em sua capacidade máxima em 13 de novembro de 2001, enquanto Kerry poderia, segundo o mercado, vender parte dessas reservas adicionais para aliviar preços, além de reduzir o confronto com os produtores de petróleo. No final do dia, o barril terminou a US$ 50,88, alta de 2,6%, fazendo crescer os temores de uma redução no crescimento mundial e dos EUA. O impacto nos juros dos títulos do Tesouro dos EUA de dez anos foi imediato -depois de ter subido quase durante todo o dia, terminaram em baixa de 0,005 ponto, a 4,07% ao ano. Os investidores também observaram o superávit na balança comercial de outubro no Brasil, divulgado ontem, de US$ 3,007 bilhões, considerado "amplamente positivo" e "dentro do esperado" por Oliveira. Ele destacou ainda a correção de expectativas do mercado quando aos juros básicos (Selic) no Brasil no boletim "Focus", do Banco Central. Os juros esperados para o final de 2004 agora são de 17,5% ao ano, na comparação com os 17% anteriores. Mas, para o final de 2005, se mantiveram em 15%. "A média dos juros para 2005 é que cresceu, de 16,33% ao ano para 16,5%, indicando que as taxas vão ficar elevadas por um período maior", afirmou. Ainda não se sabe, ressaltou ele, qual o efeito do aumento no preço do petróleo sobre a gasolina no Brasil e seus impactos na inflação. Não é à toa que, em meio ao otimismo de ontem, os juros ficaram praticamente estáveis nos mercados futuros brasileiros.