Título: Meirelles descarta taxar banco
Autor: Gonçalves, Marcone
Fonte: Correio Braziliense, 25/04/2010, Economia, p. 21

CRISE GLOBAL

Presidente do Banco Central, Henrique Meirelles diz em Washington que não vê razão para a medida

O Brasil se transformou em obstáculo para os planos dos Estados Unidos e do Reino Unido de aprovação de uma taxação sobre o lucro dos bancos. Vítimas de problemas no sistema financeiro, norte-americanos e ingleses veem a tributação como forma de recuperar o dinheiro injetado nas instituições financeiras durante a crise do ano passado. Ontem, em Washington (EUA), o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, deixou claro que o Brasil, ainda que concorde com uma reforma financeira global, não vê razão para a medida.

¿A taxação sobre o sistema financeiro (brasileiro) já é maior do que em outros países, portanto, deve-se levar em conta a situação de cada um¿, afirmou, pouco antes de participar do segundo dia de reuniões dos ministros da Fazenda e presidentes de bancos centrais do G-20, grupo que reúne as 19 nações mais desenvolvidas e a União Europeia.

A discussão sobre a necessidade de taxar os lucros bancários só não foi mais importante até agora do que o debate sobre as assimetrias das relações comerciais internacionais, questão que, segundo especialistas, pode ser também entendida como a pressão dos países ricos pela valorização da moeda chinesa, o yuan. Na sexta-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, também rechaçou a taxação, sob o argumento de que o sistema financeiro brasileiro não contribuiu para a crise mundial nem impôs perdas ao país. A explicação reside na solidez dos bancos brasileiros, que atuam sob regras mais rígidas e um avançado sistema de supervisão e fiscalização (leia mais na página 20).

Colchão O presidente do BC apontou, inclusive, os caminhos para prevenir o mundo de uma nova crise: melhor qualidade de capital e maior colchão de liquidez, além de normas mais rigorosas para instituições importantes. Meirelles disse que o Brasil tem avançado no que diz respeito ao registro de operações com derivativos. E assinalou que a exigência de depósitos compulsórios ajudou a proteger o sistema financeiro durante a crise. Para o presidente do BC, não há dúvidas no G-20 sobre a importância de se manter a reforma do sistema financeiro, independentemente de alguns países terem sofrido menos ou se recuperado mais rapidamente.

Meirelles aproveitou a viagem a Washington para indicar que o Comitê de Política Monetária (Copom) vai mesmo aumentar as taxas de juros na próxima reunião de quarta-feira, em Brasília (leia mais na página 21). Meirelles assinalou que a autoridade monetária está comprometida em assegurar a convergência da inflação para o centro da meta no período apropriado. ¿Isso certamente requer a ação vigorosa do BC durante todo o processo`, afirmou a jornalistas durante o encontro do G-20 na capital norte-americana.