Título: Meirelles tenta selar a união
Autor: Gonçalves, Marcone
Fonte: Correio Braziliense, 25/04/2010, Economia, p. 21

POLÍTICA MONETÁRIA

Presidente do BC busca convencer diretores da instituição da necessidade de consenso em torno do aumento dos juros

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, passou os últimos dias empenhado em construir um consenso no Comitê de Política Monetária (Copom) em torno do aumento da taxa básica de juros (Selic). É questão de honra para ele que a decisão seja tomada de forma unânime, para reforçar a visão de que, mesmo com todo o tiroteio disparado contra a instituição, prevaleça a união. O BC dividido que manteve a Selic em 8,75% em março ficou para trás com a saída de Mário Mesquita da Diretoria de Política Econômica. Ele era o mais conservador dos integrantes do Copom.

Meirelles sabe que, em mais de sete anos no cargo, poucas vezes esteve em situação tão delicada. Não bastasse o árduo trabalho para trazer de volta a inflação ao centro da meta de 4,5% definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), ele enfrenta questionamentos por não ter elevado a Selic em março de olho na vaga de vice na chapa liderada pela petista Dilma Rousseff à Presidência da República. Essa suspeita é levantada, principalmente, pelos grandes bancos, que jogaram todas as fichas na alta dos juros no mês passado, mas acabaram frustrados e tendo que dar explicações aos clientes que embarcaram em suas apostas.

Dentro do governo, Meirelles já acertou os ponteiros com o presidente Lula em reunião na tarde de quinta-feira, antes de embarcar para os Estados Unidos, onde participa de uma série de reuniões promovidas pelo Fundo Monetário Internacional (Leia mais na página 22). Ele deixou claro que, diante das expectativas de inflação em disparada, a hora de agir é agora. Na terça-feira pela manhã, Meirelles comandará uma reunião prévia do Copom. É dela que pretende tirar o compromisso de seus pares em torno da unanimidade da decisão do aumento dos juros. Desta vez, acredita ele, o BC mostrará que conhece o terreno em que está pisando e o que deve ser feito para corrigir os desvios de rotas.

Mudanças Entre os analistas, o consenso sobre a necessidade de aumento dos juros é clara. Mas é gritante a divisão sobre o tamanho do arrocho a ser anunciado pelo BC na próxima quarta-feira, dia 28. De 20 economistas ouvidos pelo Correio, 12 acreditam que o Copom iniciará o processo de alta da Selic com 0,5 ponto percentual. Sete cravam elevação de 0,75 ponto e um, de 0,25 ponto. Para a economista-chefe do Banco ING, Zeina Latif, os indicadores de atividade econômica e de inflação ainda não são suficientes para sustentar uma subida mais forte da Selic. Segundo ela, o BC terá que testar os efeitos do aumento da Selic sobre a inflação, pois a economia vive um fenômeno estrutural relacionado com o crescimento da classe média e o acesso de milhões de brasileiros ao crédito e ao consumo.

O tamanho da calibragem total dos juros também é motivo de divergência. O grosso dos analistas aposta em um total de 2,25 pontos percentuais, com a Selic alcançando 11,50% no fim do ano. Mas há os que veem a taxa avançando até os 13%, convencidos de que somente o aperto de 4,25 pontos será suficiente para esvaziar toda a pressão inflacionária que atormenta o BC. (Colaboraram Deco Bancillon, Vânia Cristino e Vera Batista)

Mercado dividido

Quem acredita em 0,25 ponto

Cláudio Porto, presidente da Macroplan Consultoria

¿A permanência de Meirelles no BC indica prudência. E, neste momento, prudência quer dizer aumento de juros. O mais provável é que seja de 0,25 ponto percentual, mais por conta de fatores políticos. Melhor seria uma dose um pouco maior. Como há uma disciplina fiscal baixa, a autoridade monetária vai ter que agir.¿

Quem aposta em 0,5 ponto

Zeina Latif, economista-chefe do Banco ING

¿Não acredito que as divulgações dos vários dados antes da reunião desta semana tenham sido fortes o suficiente para levar o Banco Central a subir a taxa acima do previsto. Os dados da atividade econômica são compatíveis com o crescimento robusto do PIB.¿

Carlos Eduardo de Freitas, ex-diretor do BC

¿A autoridade monetária pode começar o ciclo de aperto monetário com uma elevação da Selic em 0,5 ponto para ver como a economia reage. O BC já subiu os depósitos compulsórios dos bancos, o que deverá ajudar a conter um pouco a expansão do crédito e, por tabela, o consumo.¿

Fábio Akira, economista-chefe do JP Morgan

¿A razão do aumento de 0,5 ponto é, principalmente, pela sinalização do BC de que o início do ciclo de aumento dos juros vai começar em abril, dentro do planejado. A Selic deveria ter subido em março. Como o aumento ficou para abril, o ritmo teria que ser mais forte.¿

Jankiel Santos, economista-chefe do BES Investimento

¿Aumento dos juros será de 0,5 ponto percentual em obediência ao plano original do BC. Mesmo assim, acho que o Copom deveria começar com 0,75 ponto ou até 1 ponto para ancorar as expectativas de inflação de forma mais rápida.¿

Luís Otávio de Souza Leal, economista-chefe do Banco ABC Brasil

¿O mais recente relatório de inflação do BC deixou claro que a inflação em 2010 já está dada. O que o Meirelles pode estar fazendo é tocar a bola de lado em fim de jogo, para administrar a vitória. Ele está jogando o feijão com arroz. É uma questão de estratégia, de não inventar nada.¿

Bernardo Wjuniski, economista da Consultoria Tendências

¿Não vejo problema de descasamento entre oferta e demanda, mas os riscos podem começar a aparecer já no segundo semestre. Por isso, o BC deve manter esse ritmo de ajuste, de 0,5 ponto até o fim do ano. Tem muita gente que tem defendido um ajuste mais forte agora. Mas o BC trabalha, principalmente, a longo prazo.¿

Carlos Thadeu de Freitas Gomes, economista-chefe da CNC

¿Há espaço para aumentar a taxa de juros, mas em doses de 0,5 ponto. Se, por um lado, o PIB está crescendo, impulsionado pelo consumo das famílias, por outro, o cálculo da inflação para os próximos 12 meses está dentro da meta. Alta maior da Selic, agora, pode provocar desnecessária valorização do real.¿

René Garcia, economista da Fundação Getulio Vargas

¿O nervosismo e a indecisão dos analistas são decorrentes das expectativas de inflação, que dá sinais de chegar a 5,8% neste ano, patamar considerado perigoso. Acredito que o BC deve adotar uma política mais moderada. Tudo leva a crer que, primeiro, o Copom vai verificar se a pressão sobre os preços vem da demanda.¿

Kléber Hollinger, economista da XP Corretora

¿O BC vai soltar um alerta, e é só. Minha tese era o aumento de 0,25 ponto por reunião até o fim do ano. Mas, as ver entrevistas do Meirelles, indicando que vai aumentar os juros, e depois do ministro Mantega, dizendo que não tem necessidade, passei a apostar em um início de 0,5 ponto.¿

Roberto Padovani, estrategista-chefe do Banco WestLB

¿A política monetária é mais potente quando, com menos esforço, consegue atingir os mesmos resultados. A economia não está superaquecida. O BC dispõe de outros instrumentos, que não os juros, para colocar a inflação na trajetória da meta.¿

Carlos Coradi, diretor-presidente da EFC Consultores

¿Como o Meirelles está querendo ser ministro da Fazenda em um governo Dilma, vai impor alta de 0,5 ponto. Mas fará isso erradamente. A correlação entre a inflação esperada para os próximos meses e a alta da Selic é praticamente nula. Portanto, não se pode esperar que essa subida dos juros vá causar algum efeito na economia a curto prazo.¿

Roberto Faldini, empresário e consultor independente

¿Estou convencido de que, se o governo tiver que fazer alguma coisa, em função dos sinais de aquecimento da economia, o mais acertado é elevar taxa básica. Essa situação poderia ter sido evitada se, no passado, o governo tivesse tomado as medidas corretas, com enxugar a máquina e cortar gastos.¿

Quem prevê 0,75 ponto

Maurício Molan, economista-sênior do Banco Santander

¿Tanto a última ata do Copom quanto o relatório de inflação já vinham sinalizando a necessidade de se aumentar os juros. O plano inicial do BC era de um aumento de 0,5 ponto a partir de abril. A forte deterioriação do cenário econômico fará, porém, com que o BC seja mais agressivo.¿

Ricardo Rocha, professor de finanças do Instituto Insper

¿Começamos a perceber forte aumento da demanda, do crédito e desequilíbrio nos preços. Começa a faltar peças para a fabricação de aparelhos de televisão. Quanto mais o BC demorar para aumentar os juros, mais difícil será deixar a inflação de 2011 em um nível confortável, pois a deste ano já foi para o brejo.¿

Newton Rosa, economista-chefe da Sul América Investimentos

¿A razão principal da aposta de alta de 0,75 ponto é em função da surpresa da atividade econômica do início de ano. Provavelmente, tivemos um PIB tão forte como o do último trimestre do ano passado, quando crescemos 8%. Estamos vendo a atividade muito aquecida, que se traduz em inflação.¿

Ruy Coutinho, presidente da LatinLink

¿Acreditamos que a alta inicial de 0,75 ponto evitará movimentos mais bruscos no futuro. Vivemos um momento delicado. Grandes saltos são perigosos, principalmente em período pré-eleitoral. Mas é possível que o BC surpreenda e decida por um aumento menor.¿

Bráulio Borges, economista-chefe da LCA Consultores

¿Acho que o BC começará com 0,75 ponto de alta porque as expectativas de deterioriação da inflação continuam tanto para 2010 quanto para 2011. Para este ano, acreditamos que a inflação ficará em 4,9%, e, em 2011, em 4,11%. Como se passaram quatro meses em 2010, o impacto da política monetária deve ser sentido apenas no ano que vem.¿

Maristella Ansanelli, economista-chefe do Banco Fibra

¿A demanda doméstica está muito mais forte do que a oferta, elevando tanto a inflação corrente quanto a expectativa de inflação. Por isso, não há muito o que o BC fazer para conter a inflação neste ano. 2010 ficou perdido. Só a retirada dos estímulos fiscais não será suficiente para ajustar a pressão da demanda sobre a oferta.¿

Gustavo Loyola, ex-presidente do BC e sócio-diretor da Tendência

¿O aumento dos juros deveria ter começado em março. O atraso fará com que a dose do remédio seja mais forte e, talvez, por um tempo mais longo. Os dados de inflação estão vindo bastante ruins, tanto nos índices correntes quanto nas expectativas.¿